Resenhas

MC Carol – Borogodó

Afirmando o uso do erótico como força vital nas culturas musicais das periferias, MC de Niterói continua o caminho de suas antecessoras, mas com passos próprios e firmes

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Ano: 2021
Selo: Ubuntu Produções
# Faixas: 12
Estilos: Funk
Duração: 30'

Na capa de Borogodó, seu segundo álbum de estúdio, MC Carol toma o posto da Vênus do pintor italiano Botticelli e se ergue como a deusa negra do amor, da sexualidade e da afrodisia. Mas enquanto no quadro renascentista os anjos castos cerceiam a divindade romana, tentando ocultar-lhe o corpo e reprimir sua sexualidade, na releitura de Carol ela aparece com um sorriso malicioso de canto de boca e rodeada por homens negros chavosos (cabelo na régua, nike de molas no pé e lupa espelhada julliet) que se ajoelham aos seus pés, desdobrando-se para realizar seus desejos — um deles até lhe estende um Toddynho, que a MC de 27 anos revelou ser sua bebida favorita.

Assinada pela Teto Lab, a capa é uma pista provocadora da potência subversiva que o Funk vem produzindo através do usos criativos do erótico em suas letras — sobretudo pelas MCs mulheres negras, e em especial por MC Carol e sua singular poética da putaria, uma mistura afiada de marra bandida (como em “Jorgin Me Empresta a 12”), senso de humor absurdo (“Bateu Uma Onda Forte”) e doses agudas de discursos feministas das periferias ( “Vou Largar de Barriga” e “Me Espancou”).

A putaria — ou ousadia, na versão radio edit — é uma vertente que ocupa um papel complexo e ambíguo para as mulheres do Funk. Por um lado, foi com esta temática que nomes como Deize Tigrona, Tati Quebra Barraco e Valesca conquistaram visibilidade na cena e cravaram seus nomes na história da música brasileira. Ao mesmo tempo, as temáticas sexuais pareciam a única forma possível para que essas mulheres fossem ouvidas dentro de uma estrutura patriarcal do mercado, tornando tênue e difusa a fronteira entre a objetificação patriarcal e a liberdade da autoexpressão sexual. “Eu virei ‘a puta’ do funk e foi só assim que consegui meu espaço”, desabafou certa vez a MC Dandara, que em 1995 cantava o politizada “Rap da Benedita” (em homenagem à militante negra Benedita da Silva, atualmente deputada federal pelo PT/RJ) e nos anos 2000 passou a escrever músicas que ela classificava como “putisse”, como “Agora Eu Sou Piranha”, da Gaiola das Popozudas. No documentário Sou Feia Mas Tô na Moda (2005), Deize Tigrona faz comentário semelhante, criticando a posição sexualizada a qual artistas mulheres precisam se submeter para serem vistas: “Eu não sou nada. Mas será que se eu aparecer na televisão rebolando na garrafa eu teria mídia? Eu teria! A Carla Perez conseguiu!”, analisa.

Mas ainda que tivessem suas possibilidades artísticas limitadas pelo machismo, essas mesmas MCs foram seminais para construção uma poética que desafiava a dominância masculina operando, sinuosa e ironicamente, por dentro da lógica do patriarcado e do falocentrismo — vide a ironia cortante de Tati Quebra Barraco contra o machão brocha em “Vou Botar Você na Pista” ou o canto de autonomia libidinal-financeira em “Sou Feia Mas Tô Moda”, ambas as faixas presentes no seu álbum Boladona (2004).

Neste novo álbum, Carol pensa a partir de sua trajetória para abordar esse jogo de forças duplas e tensivas entre o erótico e a erotização. “Borogodó é uma atração inexplicável. “Se eu não tivesse esse borogodó para ir comendo pelas beiradas eu não teria chegado até aqui”, afirmou a MC, explicando o conceito do trabalho em entrevista ao G1. Refletindo sobre si e sobre a ancestralidade funk, a MC de Niterói dá continuidade ao caminho traçado por suas antecessoras, mas com passos próprios, firmes e decididos. Borogodó é a afirmação vigorosa e radical dos usos do erótico enquanto força vital nas culturas musicais das periferias — sobretudo pelas mulheres. E Carol exalta essa força tecendo um novelo de sonoridades que entrelaça desde as percussões do pagodão baiano em “Seu Vizinho” (um feat com O Maestro) aos climas sombrios do Funk mineiro em “Calibre Grosso (com DJ Cezão da Vila e DJ Pquatro), passando pelo Bregafunk pernambucano em “Pagar com Juros” e “Novinho de 17” (com MC Reino, Cleytinho Paz e CL no Beat) e, claro, pelo funk 170 BPM do Rio em “Barbaridades” (com o DJ Bertolossi).

Elza Soares proclamou-se a mulher do fim do mundo a “cantar até o fim”. Carol, num plano complementar, coroa-se a “Mulher do Borogodó”, trazendo para si o desejo pulsante como detonador de normas e estruturas de submissão, encontrando em si mesma, no seu próprio corpo, a fonte renovadora do caos: “Eu sou chave de cadeia / Minha buceta te incendeia / Tua cabeça dei um nó”. Na faixa seguinte, “Pagar Com Juros”, a MC poetiza o sexo como meio de vingança e reparação contra o boy que a traiu e “quis pagar de pirocudo” na favela. “Eu vou fuder gostoso com todos os seus amigos/ Tu vai pagar com juros tudo que tu fez comigo”, ameaça ela, com voz áspera, imprimindo tamanha urgência, avidez e ferocidade àqueles famosos versos de “Apesar de Você” que fazem a música de Chico Buarque parecer uma demanda pálida e conformada.

Mas muito além de narrar casos pontuais, as músicas de Carol liberam o potencial retesado do erótico e da putaria a partir de seus próprios termos e intenções de uma forma ampla. A MC tem plena consciência de como a sexualidade foi usada historicamente para submeter as mulheres — negras, sobretudo — ao sofrimento e à culpa. Mas é precisamente este recurso que lhe serve de arma insuspeita e reapropriada. Em “Barbaridades”, uma das letras mais impactantes do álbum, ela zomba: “A mais bandida de Niterói fez faculdade de tróia”. O erótico é então a sua armadilha disfarçada de presente, o seu cavalo de troia poético-político enquanto artista e mulher negra, periferizada, gorda.

Audre Lorde (intelectual e poeta negra e lésbica norte-americana) entendia o erótico como uma “energia criativa fortalecida” que, ao ser liberada, “flui e colore a vida com uma energia que eleva, sensibiliza e fortalece minhas experiências”. De forma semelhante, MC Carol e Borogodó — essa atração misteriosa e inexplicável — acionam a putaria para irradiar essa força para além da cama, para além do quarto, para além do sexo, extravasando-a enquanto energia vital da existência. A putaria torna-se grito ofegante de um tesão-liberdade que nos mostra nas brechas a possibilidade de um mundo e uma sociedade para além do sofrimento e da sujeição, onde o gozo é possível e realizável.

(Borogodó em uma faixa: “Barbaridades”)

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ARTISTA: MC Carol