Resenhas

Mdou Moctar – Afrique Victime

Sétimo disco do guitarrista e compositor nigerense é festivo, político e musicalmente explosivo

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Ano: 2021
Selo: Matador Records
# Faixas: 9
Estilos: Rock Sahariano, Rock Alternativo,
Duração: 42'
Produção: Mikey Coltun

É fascinante o quanto a música feita com guitarras no norte da África consegue amalgamar três características únicas para quem está familiarizado com o Indie e o Rock Alternativo do Ocidente. Primeiro, é inevitável perceber no aspecto percussivo e nos cânticos uma qualidade que referencialmente entendemos como “africana”. Em seguida, há uma identificação com as predileções timbrosas e rítmicas um tanto similares quanto as que tanto ouvimos nesses filões fora do mainstream aqui no Ocidente. E, por último, mas nunca menos importante, existe um enorme deslumbre com o nível de excelência da música produzida naquela região – que, não à toa, é frequentemente citada como influências músicos do lado de cá do Atlântico.

São questões que rondam a audição de Afrique Victime, sétimo disco do guitarrista e compositor Mdou Moctar – que dá nome também à sua banda. O guitarrista e compositor do Níger, da etnia tuaregue, evoca sua ancestralidade sahariana em músicas que parecem nascer com grande organicidade, como melodias espontâneas que ganham timbres e vozes até ostentar um enorme volume. Muitas das faixas já se tornam explosivas rapidamente, enquanto outras esquentam em banho maria, como a que batiza a obra, mas sentimos em ambos os casos que é uma música que promove o coletivo, para ser tocada, cantada e dançada por um grande número de pessoas.

É possível que essa característica social de seu trabalho ajude a quebrar os obstáculos estéticos e principalmente do idioma na recepção da sua música ao redor do mundo. Com um som tão convidativo, é fácil se deixar envolver por faixas como “Taliat” e “Bismilahi Atagah”, com a beleza das melodias e a riqueza dos timbres. Por mais que outras, como “Ya Habibti” e “Tala Tannam”, sejam assimiladas automaticamente como bastante “estrangeiras”, por se aproximarem mais daquilo que nosso imaginário coletivo espera de um disco africano, é evidente como há traços bastante contemporâneos (nesse contexto, sinônimo para “globais”) na maneira como essas músicas foram feitas, e, mesmo com qualquer resistência cultural que possamos encontrar, dificilmente os ouvintes brasileiros não se impressionariam com músicas como a explosiva “Chismiten”.

Guiados também pelo título Afrique Victime, somos levados a encontrar uma melancolia que paira sobre grande parte da obra. A faixa-título, cantada parte em tuaregue, parte em francês, clama por justiça para todo o continente africano e repete o verso “se nos calarmos, será nosso fim”. É o clímax de um disco lançado em um mundo que entende a música como expressão no meio da opressão, e o ponto alto de uma obra que nos relembra como toda a música produzida dos dois lados ocidentalizados do Atlântico (ou seja, Europa e Américas) tem suas raízes rítmicas na África – não se impressione se encontrar algo que lembre do Reggae à Guitarrada Paraense ali no meio. Mdou Moctar, com tanta habilidade na guitarra, criatividade nos arranjos e inspiração para as composições, inevitavelmente celebra essa sua raiz compartilhada, e nos convida para a festa.

(Afrique Victime em uma faixa: “Chismiten”)

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ARTISTA: Mdou Moctar

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.