Resenhas

Mei Semones – Animaru

Estreia da artista nipo-americana manuseia influências diversas com habilidade e apresenta universo tão introspectivo quanto surreal

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Ano: 2025
Selo: Bayonett Records
# Faixas: 10
Estilos: Indie Pop, MPB, Jazz
Duração: 37'
Produção: Charles Dahlke

Mei Semones é uma dessas novas vozes do indie pop que parecem surgir do nada e nos conquistam com um disco que, a princípio, soa despretensioso, mas que quanto mais se ouve, mais profundo se revela. Animaru é a estreia da artista nipo-americana, radicada em Nova York, que ecoa suas referências (que vão de Chet Baker a João Gilberto) sem se tornar mera repetição delas. Demonstrar respeito aqui é levar essas influências para novos campos musicais — mais pop e mais frescos — sem perder de vista arranjos sofisticados, pausas dramáticas e viradas inesperadas que são marcas registradas desses artistas.

De certa forma, Animaru é uma adaptação da MPB, como se um gringo buscasse na nossa música o estofo para suas composições: seja na forma de cantar (Mei tem vocal delicado e quase sussurrado), seja na forma de arranjar (com melodias e a forma de tocar guitarra que mais parece um desdobramento da bossa nova) ou ainda na maneira de construir as canções. Some a isso uma sensibilidade jazzística e um tino especial para o pop (brincado também com as possibilidades do j-pop) e teremos canções fluidas, expansivas e sonoramente muito interessantes. Não é nada que não tenhamos ouvido antes separadamente, mas quando reunidas, essas paletas sonoras criam novos quadros.

E por falar em fluidez, não bastassem as melodias flutuantes e arranjos intrincados, esse é um disco que transita entre o inglês e o japonês com enorme naturalidade. Em algumas canções, raciocínios começam em uma língua e terminam em outra, voltam para a anterior e retornam à segunda língua sem causar espanto ou a sensação de ser algo forçado ou exótico, pelo simples fato de ser exótico. Pelo contrário, as mudanças fazem com o disco soe ainda introspectivo, como se Mei nos convidasse a habitar por alguns minutos o seu mundo: falando suas línguas (seja a falada ou a musical) e debatendo alguns temas bastante pessoais.

O disco brinca com a ideia de “instinto” e “liberdade” num sentido quase animalesco (inclusive, “animaru” significa “animal” em japonês), por vezes, traçando paralelos entre bichos e comportamentos humanos. É o caso de “Rat with Wings”, que descreve alguém que Semones pensou ser angelical, mas no fim não passava de um “rato com asas” (uma metáfora tão potente, que foi parar até na capa do álbum). Ela constrói pequenas crônicas sobre afeto, desilusão e autodescoberta, com uma linguagem que soa íntima e ao mesmo tempo universal. Canções como “Norwegian Shag” e “I Can Do What I Want” provam seu talento para abordar temas delicados, como decepção e afirmação pessoal, a partir de imagens singelas e de uma honestidade ímpar.

Em entrevistas, Mei cita o escritor Haruki Murakami como inspiração, e realmente é possível traçar paralelos entre as obras, principalmente a forma sensível e melancólica com que ambos tratam seus temas, geralmente, criando mundos tão introspectivos quanto surreais. Animaru cria um universo bastante próprio, muito gentil e acolhedor, mas não se engane: não é inofensivo. Este animal tem presas — e pode te prender também.

(Animaru em uma faixa: “Rat with Wings”)

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ARTISTA: Mei Semones

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts