Resenhas

Melanie Charles –Ya’ll Don’t (Really) Care About Black Woman

Em tributo cheio de personalidade, artista do Brooklyn oferece novas perspectivas para clássicos de Ella Fitzgerald, Billie Holliday, Betty Carter, Marlena Shaw, entre outras

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Ano: 2021
Selo: Verve Records
# Faixas: 11
Estilos: Jazz
Duração: 32’
Produção: Melanie Charles

No início da década de 1970, a multi-instrumentista Alice Coltrane marca um ponto de virada em sua carreira (e vida). Quando seu marido, o lendário John Coltrane, faleceu precocemente aos 40 anos em julho de 1967, o casal vivia o amor supremo: tinham três filhos, compartilhavam de uma espiritualidade profunda, com imenso interesse na filosofia indiana e haviam tocado juntos em diversos projetos. Ainda assim, Alice era com frequência referenciada – injustamente – apenas como a viúva de John, mais do que a competente música que já havia se provado. Para superar o luto, Alice Coltrane usou a música: aliado ao auxílio espiritual de Swami Satchidananda (líder religioso indiano), ela adicionou a harpa encomendada por seu marido antes de morrer como instrumento pivô em suas criações. Com discos como Universal Consciousness (1971) ela propôs uma nova ciência de arranjos e temas, dando início a uma jornada própria, se consolidando tão ímpar quanto o marido.

Assim como a história de Alice, que muitas vezes foi relegada à posição de “esposa de John Coltrane”, a história de outras mulheres negras com frequência é menos apreciada do que deveria — e Melanie Charles está disposta a questionar isso. Em seu disco de estreia, a artista de 34 anos, filha de haitianos e natural do Brooklyn, em Nova York, faz o movimento ousado de dedicar o seu primeiro trabalho por uma gravadora a reimaginar canções clássicas de mulheres negras do Jazz. Com o lema de “Make Jazz Trill Again”, algo como “Faça o Jazz do Povo Novamente”, Charles traz perspectivas atualizadas, eletrônicas e até mesmo dançantes de músicas de Ella Fitzgerald, Billie Holliday, Betty Carter e outras.

Nos anos recentes, Melanie Charles tem conseguido dar grandes passos na carreira. Combinando o Jazz com doses precisas de R&B contemporâneo e Soul, seu estilo tem sido incorporado por um interessante leque de artistas, que vai de SZA ao rapper Mach-Hommy, passando por Gorillaz. Este ano, a artista também participou do Tiny Desk (At Home) da NPR, e manteve a ousadia característica: apresentou a autoral “Dillema”, homenageou Sun-Ra – a quem ela se refere como um Deus – realizando sua releitura de “Deep River” e “Damballa Wedo”, uma canção vodu tradicional do Haiti por Toto Bissainthe.

Reimaginar canções de gigantes do Jazz é uma tarefa naturalmente arriscada. No entanto, com notável autoconsciência e uma pitada de humildade, Melanie Charles entende os desafios e oferece um novo respiro a clássicos, fazendo de Yall Don’t (Really) Care About Black Women (2021) um projeto capaz de apresentar esses nomes a uma nova audiência. Em “Woman of the Ghetto”, releitura da música de Marlena Shaw, Charles reflete sobre os efeitos da brutalidade policial na comunidade negra, especialmente nas mulheres. Com a adição das harpas de Brandee Younger, a faixa ganha texturas melódicas que ilustram a ingrata resiliência necessária em determinados momentos da luta.

No canto, o disco de estreia de Melanie Charles é fortemente influenciado por Billie Holiday (“God Bless The Child”) e Sarah Vaughn (“Detour Ahead – Reimagined”). Na homenagem para a segunda, a faixa abre com um sample de um minuto de uma versão ao vivo do som original antes de ser invadida por synths e lúdicas percussões que fazem uma potente transição para a versão de Melanie. Enquanto isso, “Pay Black Woman Interlude” mescla arranjos de Jazz tradicionais com spoken-word, lembrando skits em álbuns de Rap. São alguns dos melhores sons do passado misturados a sons do presente, forjando uma saborosa fusão experimental. As faixas juntas não compõem uma unidade narrativa, mas isso não compromete a audição, uma vez que se compreende a proposta do disco — como se cada música fosse um portal para um determinado ano, uma determinada época.

Yall Don’t (Really) Care About Black Women é uma verdadeira carta de amor ao trabalho por muitas vezes desconhecido de mulheres negras. Melanie Charles nos leva em uma jornada que incorpora a alma do Jazz — a exploração —, e pede que os ouvintes deem os méritos merecidos a essas artistas. Seu primeiro disco de gravadora exibe extenso reportório e competência no ofício do Jazz, enquanto a cantora honra sua herança haitiana em combinação com o espiritualismo que o gênero permite, na busca de torná-lo trill novamente.

Em entrevista para a Downbeat, ela comentou: “Para mim, há tantos músicos que estão fazendo o que chamo de ‘jazz trill’ – meus contemporâneos como Kassa Overall, Theo Croker e Kamasi Washington […] Para mim,‘ trill jazz ’está enraizado no lema ‘by the people, for the people’. Mas também é onde os mais velhos e os jovens podem se conectar. É lindo que eu possa fazer uma música como ‘Skylark’, que minha mãe adora, mas posso fazê-la de uma forma que os jovens também vão se conectar. É um empurrão para a frente, ao mesmo tempo que reconhece o passado”.

(Yall Don’t (Really) Care About Black Women em uma faixa: “Women of The Ghetto”)

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