Resenhas

Mercury Rev – The Light in You

Após sete anos, obra marca retorno grandioso à boa forma do grupo

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Ano: 2015
Selo: Bella Union
# Faixas: 11
Estilos: Rock Psicodélico, Rock Alternativo
Duração: 44:00
Nota: 3.5
Produção: Mercury Rev

Mercury Rev é o típico grupo que o tempo contribuiu ao seu reconhecimento. Você talvez possa desconhecer sua música, mas provavelmente não seu nome, e, diante de uma carreira de mais de 30 anos, o despertar para um novo público nunca pareceu tão correto. The Light in You é o disco inesperado de Rock Psicodélico em 2015 e traz de volta temas orquestrados, quase cinematográficos, que somente os norte-americanos sabem criar. Do começo ao fim da obra, o seu título parece reverberar no inconsciente do ouvinte devido aos constantes embates entre a luz e a escuridão, sempre travados em acordes épicos e viajantes.

A viagem não poderia ser mais madura, fazendo inclusive o seu pai fã de Pink Floyd olhar com atenção o grupo. Sete anos se passaram desde Snowflake Midnight e o mercado para as músicas da banda norte-americana mudou bastante no período. Se o Rock dito psicodélico nunca fora esquecido na produção musical, ele também nunca estivera tão perto dos holofotes atualmente, a ponto de ser enxergado de forma míope por ai. Atualmente, quase tudo pode parecer lisérgico, viajante e “psicodélico”, no entanto são poucos os grupos que abordam essa temática de forma precisa.

Não precisamos inventar “psicodelismos” no som de Mercury Rev porque a banda os demonstra por si só: são seres à parte dentro da música que compartilham a “viagem no olhar” de amigos mais “doidinhos” como Flaming Lips. Friamente, o grupo cria reinos à parte em uma trilha propícia para musicais como Fantasia e nos convida constantemente a fecharmos os olhos para sermos transportados a esses mundos distantes. A abertura The Queen Of Swans é um desses exemplos e não poderia iniciar melhor a obra: de forma épica. Torna o pré-requisito “arena” um acompanhamento indispensável aos seus concertos, tamanha a grandiosidade que se segue depois.

Faixas como Amelie e You’ve Gone With So Little For So Long tem elementos-chave para decifrar a sonoridade do nono disco da carreira do grupo: isolamento físico diante de belezas imensas e que podem ser vistas no mundo como intermináveis oceanos, inóspidos desertos e gigantes montanhas. São contos que nos colocam pequenas composições vislumbradas por uma paisagem que nos deixa pequenos. A viagem acaba sendo uma jornada para descobrimos a emoção na natureza, mas sempre solitários. Central Park East traz tal sensibilidade às letras: “Am I the lonely boy to ever walk in Central Park?”. É o tal do Lonerism sendo feito de forma extrasensorial.

A curiosidade do disco passa também pela sua confecção: é o primeiro registro em mais de 25 anos sem o baixista e produtor Dave Fridmann. Ao mesmo tempo, um dos grandes protagonistas de The Light in You é o baixo. O instrumento pulsa pelos campos de Emotional Free All, nos faz dançar desejeitados em Sunflower e é a principal melodia por traz de Coming Up For Air.

Mercury Rev ajudou a lapidar a psicodelia junto ao Rock Alternativo desde os anos 1980 e acabou saindo do status de banda “cult” para fenômeno quando lançou Deserter’s Songs em 1998. Listado entre os melhores discos daquele ano, a obra alcançaria o inconsciente coletivo de diversas bandas e pode ser considerado um marco de David Baker e companhia. Talvez Mercury Rev nunca alcance a maestria daquele disco, no entanto seu novo álbum é um digno retorno e nos abre a chance de ver o grupo ao vivo. A certeza é que The Light in You pede para ser orquestrado em um grande palco, proporcional a imensidão psicodélica carregada aqui.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.