Resenhas

Michael Kiwanuka – Love & Hate

Segundo disco do cantor e compositor inglês aponta evolução nítida

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Ano: 2016
Selo: Polydor
# Faixas: 10
Estilos: Folk, Soul, Blues
Duração: 55:08
Nota: 4.0
Produção: Danger Mouse & Inflo

Ouvindo este segundo álbum de Michael Kiwanuka, algumas coisas ficaram na mente. Em primeiro lugar: o que precisamos é de bons discos, certo? Não apenas faixas soltas ou em EPs, mas bons conjuntos de dez, doze canções lançadas de uma vez. Não é nostalgia. Este formato, que foi expresso em LPs ou CDs é a evolução da música Pop com o mínimo de conteúdo a oferecer além da descartabilidade total de três minutos de duração. Claro, há momentos em que esta visão é aceitável, mas preferimos algo maior e melhor, certo? Certo. O segundo lugar: torcemos bastante pela carreira deste jovem cantor e compositor inglês de ascendência ugandense. Ele é um cara legal, tem boa voz, bom gosto, composições OK e uma vontade imensa de acertar no alvo sem abrir mão do que gosta, neste caso, dessa mistura urbana de Folk, Blues e Soul, algo que gente graúda como Van Morrison, Terry Callier conseguiram no passado e Lianne La Havas e Ray Lamontagne, com a boa vontade da comparação, conseguem no presente.

Michael perde, evidentemente, se for colocado no mesmo patamar dos mestres do estilo, mas está em pé de igualdade em relação a seus contemporâneos, especialmente agora, com o segundo disco lançado. Aqui, neste bom Love & Hate, ao contrário da razoável estreia Home Again (2012), há coesão e um nível satisfatório de boas composições. Também há um conceito estético no ar, uma linha de pensamento a ser seguida e, sobretudo, há um produtor bom no comando disso tudo, no caso, Danger Mouse. Tudo fica mais nítido e objetivo na proposta do jovem, que é fazer uma música negra contemporânea reflexiva, algo para se ouvir com calma e atenção. Não é uma trilha sonora para o cotidiano, uma vez que as canções e seus arranjos pedem atenção total ou, pelo menos, foram compostas e elaboradas com esta ideia. E outro detalhe interessante marca este novo álbum: grandiosidade. Danger Mouse e Kiwanuka pensaram em algo solene, lento, cinematográfico, uma declaração estética de intenções, sem muitas concessões ao formato mais banalizado de música Pop, obrigado o ouvinte a ter atenção, consideração para com as canções. Apesar de louvável, esse desejo de solenidade atrapalha mais do que ajuda.

A faixa de abertura, Cold Little Heart, do alto de seus quase dez minutos de duração, prepara o ouvinte para o que está por vir: um coquetel de pianos, cordas, vocais de apoio, tudo colocado de modo a fazer Kiwanuka graduar-se nessa faculdade musical. Tudo é bem feito e bem gravado, mas alguma coisa suspeita está presente. O viés Progressivo-Soul não é novidade, mas é algo pouco explorado depois dos anos 1970, constituindo aqui uma boa estratégia. A canção, no entanto, ao contrário de instrumentais intrincados ou algo no gênero, altera levadas e andamentos, soando mais como se fosse duas ou três faixas em forma de suíte. Apenas no pedaço final ouvimos a boa voz de Michael. Seria melhor algo menor como a segunda canção, a arrepiante Black Man In A White World, na qual uma letra resignada e triste sobre racismo e diferenças surge em meio a um instrumental Gospel moderno e muito bonito. Temos então as duas facetas na mesa: a pompa da primeira canção e a belezura da segunda. O disco será um cabo de guerra entre estes conceitos.

Deste choque de propostas surgem bons momentos. Falling é outra canção triste sobre inadequação no mundo, angustiada e bela. Place I Belong já tem uma parte instrumental e rítmica mais interessante, com belo arranjo de cordas surgindo sutil por entre a melodia. A faixa-título, com sete minutos de duração, também tem referência Gospel no uso dos corais como parte do refrão e no clima de crescendo que vai se construindo ao longo da melodia, novamente entremeada por boas cordas e pela voz de Michael, que surge límpida e forte. One More Night já tem mais pontos em comum com o Soul clássico dos anos 1960, uma novidade que Kiwanuka apresenta aos fãs só agora e com bom domínio de uma canção mais tradicional. I’ll Never Love já despeja mais letras tristes “I’ll never love somebody” num belo exemplo de canção torturada e cinzenta, que procura achar força na desesperança, por mais paradoxal que seja. Rule The World, logo em seguida, é a mais bela do álbum, com início sombrio e redenção via cordas e vocais de apoio a partir do meio para o fim.

Partindo para o fim do disco, Father’s Child é bela e com tonalidades um pouco mais arejadas, bem marcada por guitarras, piano e batida eletrônica bem elegante, abrindo passagem para The Final Frame, um Blues estilizado e lento, árido, que cai bem como fim de linha. O saldo de Love & Hate é satisfatório, dando certeza que ele irá conquistar de cara os muitos admiradores de Michael, possivelmente cativando novos. É um trabalho lento, feito para ser ouvido aos poucos e muitas vezes. Sua solenidade às vezes parece forçada, quase atrapalhando algumas canções, mas a juventude e carisma de Michael surgem mais fortes no fim. Uma promessa que dá mais um passo em direção à realidade.

*(Love & Hate em uma música: Rule The World)**

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.