Resenhas

Mick Jenkins – The Water[s]

Jovem rapper de Chicago faz uma das melhores mixtapes do ano ao abordar seu cotidiano

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Ano: 2014
Selo: Independente
# Faixas: 15
Estilos: Hip Hop, Rap
Duração: 57:00
Nota: 4.0
Produção: Mick Jenkins

A vida de rockstar é atrativa. Dinheiro, poder, notoriedade, relacionamentos efêmeros e sexo casual são algumas das ideias que passam pela cabeça de uma pessoa quando dizemos que tal pessoa é uma celebridade. Não é à toa que usamos a mesma expressão para quem muitas vezes nem Rock’n’Roll faz – atores, diretores de cinema, apresentadores de TV, músicos e, acima de tudo, rappers que transformam este estilo de vida em seu símbolo. Não é à toa também que grande parte do Hip Hop atual pode soar muito vazio em suas letras, ao sempre usar os mesmos temas e a querer mostrar a “Good Life” que Kanye West sempre goza por aí.

No entanto, não é em vão que, apesar da genilidade do rapper de Chicago ultrapassar seu abuso lírico, algo que Yezzus soube dominar sem problemas ano passado, alguns outros nomes ganham força por justamente se aproximarem do que era considerado Hip Hop antigamente: um canal de palavras que tratava das mazelas sociais vividas. Kendrick Lamar fez isso em dois discos, levando-o ao status de rockstar também, enquanto nomes como Joey Bada$$ criaram mixtapes gratuitas trazendo de volta o flow das rimas dos anos 1990, fluídas como Jazz sempre se propôs a ser. É nesse limite que se encontra Mick Jenkins, jovem rapper da mesma cidade de Kanye, mas que faz de Water[s] sua grande obra até então.

Não que ele tenha uma vasta discografia em sua carreira, a mixtape lançada de forma gratuita é apenas o seu segundo trabalho após o elogiado Trees & Truths, no entanto, é neste momento que sentimos a sua maturidade e a voz de um rapper que ostenta respeito nos primeiros acordes. Se o vocal é tudo no Rap, o elo que garante a conexão entre artista e ouvinte, Mick consegue nos capturar desde o principio, como a tensa abertura de Shipwrecked – “Felt the tension in my toes/’Man who is that? I don’t know’” – que vem acompanhada de acordes e instrumentação atmosférica, algo que se tornará recorrente ao longo do trabalho. São nos pequenos detalhes de instrumentos de sopro sampleados ou nos barulhos de correntes de água que somos sempre colocados como espectadores de suas histórias.

Os temas passam pela vontade em seguir firme em suas origens e não se corromper com o dinheiro em Martyrs(que usa o mesmo sample utilizado por Kanye em Blood On The Leaves) ou as falsas aparências, cheias de mentiras por trás, na excelente e minimalista Jazz. Aliás, o fluxo de rimas que antecedem o refrão da música é perfeito em seu drop de batida e faz desta faixa uma das melhores do ano, sem dúvidas. Sua constante repetição da palavra water explicita o tema central de seu disco não só pelo título, mas também porque visa atentar o ouvinte ao básico, ao mostar que a água é algo tão elementar, mas deixado de lado tantas vezes, como a essência do ser humano. É por isso que ele diz “drink more water” em Thc ou na sensual Drink More, e é por isso que afirma na balada “kendrickiana” Black Sheep: “I never had no problem being transparent /Remember I was younger wishing that I had my friends parents /Back when they lied to us better, I’m on this water now”.

O plural não é à toa, água é vida, água é transparência e essência de um músico que afirma em suas letras que não está deslumbrado com a vida de rockstar – se corromper pelo dinheiro parece ser o seu principal dilema e constante batalha na vida. Logo, não é dificil se identificar com as batidas feitas no mesmo suíngue do Jazz, fluidez semelhante à água correndo pelo ralo na pia ou em um rio cheio pelas enchentes. A prova disso tudo vem com a inesquecível Healer com a participação de Jean Deux, confessional música que emociona nos pequenos detalhes – na bateria leve, na guitarra delineada de fundo ou no étereo vocal da cantora. Tudo isso traz paz e esse é o grande trunfo de Mick Jenkins na sua segunda obra – ao falar sobre todos os problemas que vive, viveu ou viverá, ele nunca deixa de passar tranquilidade em sua construção ou simplesmente seriedade em suas palavras. Não deixe de baixar aqui seu trabalho ou apenas ouça no link abaixo uma das melhores mixtapes do ano.

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BOM PARA QUEM OUVE: Blu, Joey Bada$$, Kendrick Lamar
ARTISTA: Mick Jenkins
MARCADORES: Hip Hop, Ouça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.