Miles Kane – Coup De Grace

Belo disco autoral dialoga com estéticas da música britânica

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Ano: 2018
Selo: EMI
# Faixas: 10
Estilos: Rock Alternativo, Indie Rock
Duração: 31:48
Nota: 4.0
Produção: John Congleton

De vez em quando surge um disco que não vai mudar o mundo, mas que te conquista pela sinceridade, eficiência e relativa majestade. É o caso deste ótimo Coup De Grace, terceiro trabalho do “last shadow puppet” Miles Kane. Ele iniciou uma carreira solo simpática após participar do projeto paralelo de Alex Turner mas não havia chegado a resultado tão efetivo. Talvez a combinação “fim de relacionamento + bloqueio criativo” pela qual o rapaz passou tenha potencializado o melhor de sua verve e o resultado está aqui: um álbum curto e grosso, banhado em influências que vão do Punk ácido anglo-americano a arabescos bowieanos de qualidade inquestionável. Uma pitada de psicodelia aqui, uma colher de chá de Glam ali e, voilá.

São quase 32 minutos em dez faixas. Kane não dá espaços para gravações longas e deixa de lado o que pode ser supérfluo. A faixa-título é a mais longa, com 3:56 minutos e mais parece um remix de The Clash, especialmente a sua introdução, que lembra rapidamente o clássico The Magnificent Seven, do quarteto londrino. Mas a coisa nunca resvala para a xerocópia, especialmente porque a faixa vai pegando ritmo no mais simpático Disco Punk possível, chegando a lembrar alguma produção gloriosa do início da carreira de The Rapture. Mas esta canção está lá no meio do disco. A primeira impressão que o ouvinte tem é com a guitarrama desenfreada de Too Little Too Late, que, sim, parece um punkão fora de época, com direito a contagem no início e pouco mais de dois minutos e meio de correria e gritaria, no melhor sentido dos termos.

A segunda faixa é um pequeno colosso Glam, com decalque preciso do climão de T.Rex em outro clássico da música mundial, Get It On (Bang A Gong), dessa vez adentrando no terreno da, digamos, “influência exacerbada”, mas com tanta dedicação e afinco que quase esquecemos da semelhança entre criador e criatura. Kane se esforça nos vocais, a banda de acompanhamento vai com pé fundo no instrumental e o sintetizador que faz a linha de baixo é muito bem pilotado, com direito a um solo de guitarra modelo 1974, com dupla carburação e motor V8 que bebe muito. Uma belezura fora de época, que chama a atenção em meio a tantos carros populares.

O ponto alto-altíssimo de Coup De Grace é na balada psicodélica-bowieana que surge na metade do álbum, Killing The Joke, que trocadilha com nome de banda, mas mergulha sem cerimônia no lado mais contemplativo e sintetizado da arquitetura pop setentista. O arranjo é belo, os climas tecladeiros e o andamento 4/4 básico casam como goiabada e queijo e o refrão é belo o bastante para fazer Kane mudar de prateleira na escalada Pop planetária.

Coup De Grace merece o seu carinho e um espaço no seu esquema de “melhores de 2018”, especialmente naquele espaço dedicado aos discos de estimação, que só você vai conhecer e entender. Daí, num belo dia, chega a pessoa amada/a ser amada e você apresenta como se fosse um tesouro pessoal e intransferível, que vai ser transferido. Assim caminha a humanidade no que ela tem de melhor. Belezura de disco, Mr. Kane.

(Coup De Grace em uma música: Killing The Joke)

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BOM PARA QUEM OUVE: Franz Ferdinand, Beady Eye, Kasabian
ARTISTA: Miles Kane

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.