Resenhas

Mogwai – Atomic

Banda escocesa se sai bem em trilha sonora para documentário

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Ano: 2016
Selo: Rock Action
# Faixas: 10
Estilos: Post Rock, Trilha Sonora, Instrumental
Duração: 48:41
Nota: 3.5
Produção: Mogwai

Gente, e a Era Atômica, hein? Quando pensávamos num futuro sem esperanças, o apocalipse nuclear era a paisagem mais corriqueira em nossas mentes dos anos 1980. Cogumelos explodindo por toda parte, mísseis balísticos voando pelos continentes, lançados pelos Estados Unidos e pela União Soviética, destruindo tudo. Depois do inverno nuclear, se ergueriam sobreviventes e mutantes, que se matariam pelo controle do planeta devastado. Metáforas, digressões, viagens, certo? Nem tanto, nem tanto. E por que eu estou falando disso? Porque distopia e energia nuclear sempre andaram mais ou menos juntos. Ninguém poderia imaginar, no entanto, que o futuro guardaria o neoliberalismo como seu principal monstro apocalíptico, em vez da guerra atômica. Pois bem, chega. O que você precisa saber deste preâmbulo é que Mogwai gravou um novo álbum, que ele é muito legal e que, como você deve imaginar, traz canções sobre este tema. Só que o buraco, como já dizia o profeta, é mais embaixo.

Atomic traz canções gravadas para a trilha de um documentário da BBC sobre benefícios e malefícios da energia atômica ao longo do tempo. Tem as terríveis imagens dos bombardeios americanos ao Japão, que encerraram a Segunda Guerra Mundial, tem o acidente nuclear com a usina de Chernobyl, na Ucrânia soviética de 1986, mas também tem os avanços energéticos conseguidos com o uso da energia atômica, bem como seu emprego no desenvolvimento de tecnologias médicas. A ideia de chamar o grupo escocês para desenvolver canções para este contexto veio do diretor Mark Cousins, que procurou o contraste de juntar a musicalidade distópica da banda com imagens de arquivo, que constituíram o principal manancial visual de sua produção.

A música que temos aqui é bem característica dos trabalhos anteriores de Mogwai, o que é sempre bom. Temos suas sonoridades tensas, lentas, às vezes assustadoras, tamanha a cobertura sonora que proporcionam. Se há um diferencial entre o grupo e o resto é sua capacidade de pensar suas canções de forma espacial, preenchendo vazios. Aqui, mais que isso, há toda uma atenção à solenidade pomposa e súbita da finada União Soviética, que muita gente só conhece da leitura dos livros de História, desconhecendo um mundo em que os Estados Unidos não eram a única superpotência, não podendo, desta forma, invadir todos os territórios que se insurgem contra as regras desiguais do mundo. Tampouco podiam fazer isso os russos, regulados pela presença americana. Este equilíbrio – frágil – era o que tínhamos como guarda-chuvas nuclear. Mogwai consegue, de forma genial, colocar algo de soviético em algumas canções, sobretudo em Pripyat, que tem o nome da cidade onde está situada a usina de Chernobyl. O clima é aterrador mas grandioso, como se um grande gigante tivesse sofrido um ferimento pesado quase caísse, alegoria esta que não se mostra totalmente errada.

Essa coisa misteriosa e soviética também está presente em Tzar, faixa que surge lá no fim do álbum, porém com menos tensão e medo sugeridos, abrindo espaço para ambientes menos escuros. Mas nem só de tensão vive Atomic, pelo contrário. Se a intenção do filme é mostrar os dois lados do uso da energia nuclear, temos beleza logo na faixa de abertura, a singela Ether e a luminosa SCRAM. A tensão armamentista surge logo após, na mecânica e gorda Bitterness Centrifugue e na mimalista U-235, que é a abreviação de um dos isótopos do Urânio. Weak Force é outra canção que recupera alguma paisagem nevada e desolada, talvez num inverno nuclear da alma, enquanto Little Boy investe em tonalidades mais solenes, em clima de progressão rumo a explosões controladas. Are You A Dancer, cheia de delicadeza melódica e Fat Man, que parece uma canção de Pink Floyd rearranjada por Mogwai, encerram os trabalhos do álbum, de forma austera, dura, implacável.

Atomic se mostra um trabalho ideal para Mogwai explorar duas dicotomias e expor facetas conflitantes de sua moeda musical. Há espaço para luz, escuridão, movimento e prostração, tudo junto, na mesma linha de raciocínio, às vezes na mesma música. Sua presença nesta trilha faz com que vejamos as imagens, sem necessidade de mais nada. Boa pedida.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.