Resenhas

Moon Duo – Shadow Of The Sun

Terceiro disco da dupla americana pode ser precursor da “Psicodelia gourmet”

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Ano: 2015
Selo: Sacred Bones
# Faixas: 9
Estilos: Pop Psicodélico, Pop Alternativo, Neo Psicodélico
Duração: 42:49
Nota: 1.5
Produção: Ripley John

Prezados leitores, aqui vai um floco de sabedoria, tirado do release do novo álbum de Moon Duo, Shadow Of The Sun: “O ápice da Psicodelia, seja ela arte, música, drogas ou literatura, é promover uma mudança de consciência prolongada que afeta o sujeito muito além do tempo em que este foi ‘exposto’ à obra”. Lendo um pouco mais do texto elaborado pela gravadora Sacred Bones, sou levado a pensar que estou diante da mais lisérgica e anárquica formação do Rock em todos os tempos. Perto da dupla, bandas como The Doors, Love, Pink Floyd, Happy Mondays e artistas como Janis Joplin e Jimi Hendrix eram/são amadores no ofício de elaborar e criar a partir da abertura das tais “portas da percepção” pelo uso de substâncias alucinógenas ilícitas.

Uma olhada para a capa deste que é o terceiro álbum lançado pelo guitarrista/vocalista Ripley John, a guitarrista/vocalista Sanae Yamada e pelo recém-efetivado baterista John Jeffrey, eles mesmos donos de visuais, digamos, incomuns, nos dá total certeza que estaremos intoxicados e cavalgando ouriços do mar cor de laranja num mar de bolhas de sabão nos primeiros quinze segundos da canção de abertura do disco, Wilding. Qual o quê. A onda não bate, o barato não pega, e você está ali, no seu quarto, olhando para a parede que continua da mesma cor e nem mesmo seus posters ou quadros de mexem. Propaganda enganosa. Ok, vamos parar com a ironia.

O que me motiva a pensar num embuste é a construção de toda essa parafernália psicodélica de playground leite com pera, algo totalmente forjado nos departamentos de marketing ou criado por absoluto desconhecimento do que significa atingir estados alterados da mente e, a partir desta condição, se expressar em forma de arte. É a gourmetização da doideira, personificada numa sonoridade que não justifica qualquer apreço nem de longe.

O que Moon Duo entrega é um Rock Eletrônico qualquer nota, com tentativas de obter climas e nuances subterrâneas/noturnas que signifiquem alguma revelação na pista de dança de um porão abandonado, como o que o release menciona, que serviu de estúdio para a gravação do álbum, no qual a banda “sentiu-se desafiada a enfrentar um ecossistema opressor”. Falem sério! Ecossistema opressor é o Metrô às cinco da tarde. Ao contrário do que pensa a maioria da imprensa gringa, Shadow Of The Sun tenta transcender através de uma noção contemporânea de Psicodelia, via timbres que se esforçam em escapar da tradição, mas que não logram sucesso nisso.

A existência de três canções razoáveis neste compêndio musical impede a sucumbência total diante de tanta pose e pouca eficiência. A terceira faixa, Free The Skull, se livra do cadafalso pela existência de algum sinal de vida na bateria, nem que seja na mixagem desta, saindo do padrão “estamos afundados na lama sonora enquanto espancamos nossos ton-tons”. Slow Down Low também consegue sair-se bem pelo uso de órgão – ainda que seja quase inaudível – e pela levada que parece a de um grupo de publicitários tentando tocar algo de T.Rex, mas rápido demais. Alguma alteração no andamento aqui e ali dá um tom de esperança, mas nada demais. A última canção, Aninal, é a mais invocada e enguitarrada, com bateria supersônica, teclados de festa gótica do Armaggedon mas que não dá angústia ou promove catarse em quase ninguém. Quando você pensa que ela vai engrenar ou te vencer pelo cansaço, a canção acaba aos dois minutos e dez segundos.

Por mais que a percepção da música Pop tenha mudado com o tempo, não dá pra aceitar uma ênfase tão grande em Rock psicodélico para um resultado tão distinto do que já se fez ao longo do tempo. Talvez Moon Duo seja o precursor da Psicodelia careta, orgânica e gourmet. É provável.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.