Resenhas

Morfina – Farta Evanescente

Disco de estreia explora diversas perspectivas da insanidade

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Ano: 2016
Selo: Independente
# Faixas: 12
Estilos: Indie Rock, Experimental, Post Punk
Duração: 40:15
Nota: 4.0
Produção: Morfina

Freud uma vez disse que dar nome a um filho é o ato de maior poder que um ser humano possui. Nesse sentido, Igor Peixoto e Reuel Albuquerque provaram ser dignos desse poder ao nomear seu iniciante projeto de Morfina. Vindos de Alagoas, o duo poderia ser confundido com um amador projeto de Indie que, assim como tantas outras bandas, se usa do Lo-fi como estética primordial, mas as coisas felizmente não parecem caminhar por essa impressão superficial. Com um nome desses, já fica claro que a experiência não é apenas musical, se expandindo para todos os sentidos quase como a real sensação de tomar a tal droga na veia. Quando os primeiros acordes e os vocais reverberados de Louca Mulher são disparados, as coisas começam a ficar mais e, ao mesmo tempo, menos claras.

Farta Evanescente é um delírio pleno. Com muitos truques de edições, aleatoriedades desorientantes e um toque Lo-fi muito bem planejeado, o disco leva o nome da banda às últimas consequências à medida que ele parece ser o catalisador de todo este mundo maluco. Não é mais um disco de Indie Rock chato que se usa da simplicidade do gênero para produzir músicas repetitivas e sem sentido. Cada composição tem um charme e uma linha de raciocínio própria (se é que há alguma lógica na loucura), conduzindo o ouvinte por diferentes sentimentos, cada qual um episódio extremamente detalhado de um caos absoluto. Como o título aponta, é uma sensação de evanescer, de que nossa mente de desintegra e se esvai para diferentes direções, ocupando o maior espaço possível, assim que damos o play.

O interessante é que Morfina tem muito sucesso em juntar suas referências de naturezas opostas de forma pouco forçada e bastante coesa. Ela pode parecer uma agitada baladinha Indie Rock, mas os descompassos e vocais amadores dão uma forma que flerta com um Garage Rock bastante cru. Seu Amor propõe o divertido encontro de riffs bregas com vocais harmoniosos no melhor estilo Fleet Foxes, já Meu Lar se apoia em pads melancólicos para declamar sofrências existenciais e mais solos bregas (uma das melhores qualidade do duo). Por fim, Vaguear é uma progressão Blues tocada no violão, com mais harmonias vocais e mais sofrência, sintetizando vários elementos bastante apreciados pelo grupo.

Morfina acerta em cheio em sua estreia. Não só por destruir qualquer forma de limitação que suas referências pudesse impor, mas por saber usar cada elemento de forma precisa para compor uma identidade sonora sólida e totalmente insana. Novos projetos só tendem a somar frutos para este duo, que cedo mostra uma ambição verdadeira em se apoiar na loucura como forma de criar composições interessantes e fortes. Uma viagem de diferentes cenários e de qualidade inquestionável.

(Farta Evanescente em uma música: Seu Amor)

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BOM PARA QUEM OUVE: Youth Lagoon, Real Estate
ARTISTA: Morfina

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.