Resenhas

Moses Sumney – græ

Poesia existencialista, instrumental vibrante e um dos grandes discos de 2020

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Ano: 2020
Selo: Jagjaguwar
# Faixas: 20
Estilos: Neo-Soul, Alternativo, Jazz,
Duração: 65'
Produção: John Congleton

Não sei se é apurado chamar græ de “existencialista”, ou se Moses Sumney se identifica com o conceito, mas é uma palavra que vem à mente na audição do disco. Ao longo de suas 20 faixas, o álbum duplo traz o artista em um diálogo com suas posições no mundo, sejam elas intrínsecas à sua experiência de vida ou aquelas nas quais os outros, ao olharem para ele, decidem enquadrá-lo. É um desenvolvimento maior, em diversos sentidos, ao que ele iniciou em Aromanticism (2017).

No trabalho de estreia, o músico media seu valor a partir das relações amorosas (ou da falta delas) em uma cultura que insiste em não se desvencilhar de ideias de um romantismo já bastante antigo. Desta vez, Moses expande a gama de medidas que interferem na maneira com que ele convive – não necessariamente em paz – com a sociedade, com os outros e consigo mesmo, principalmente em questões de gênero e de raça.

Desde a abertura “insula”, ele discursa sobre o isolamento, seja por sentir-se só ou por se identificar pouco com os outros. Esse fenômeno gera consequências que Moses expõe abertamente, como o autoflagelo em “Cut Me”, que traz a dor voluntária como ferramenta para lidar com a que os outros impõem. Nesta sua solidão, ele expressa desejo de se conectar aos outros, mas é vítima da desconfiança de como será percebido pelos outros (“In Bloom” e “Polly”, por exemplo), que teimam em colocá-lo em categorias muito específicas.

O que ele fala ao longo do álbum é que ele não é apenas homem e preto, como se esses dois conceitos viessem carregados de interpretações insuficientes para concebermos quem Moses é. Ele comenta a masculinidade em “Virile” e “Conveyor”, que usam a guitarra (talvez o instrumento que mais se configurou como “masculino” décadas atrás) e trazem força necessária para ser ouvido, ou levado a sério, ao dialogar com esses temas. Já “Colourour” trata da colorização com uma outra postura e diferente poética, respeitando a delicadeza que esse assunto pode pedir. Como “boxes” fala, no entanto, ser reduzido a cor da sua pele é uma estratégia de controle, uma armadilha na qual ele não quer cair.

Essas definições que limitam sua experiência na Terra acabam sendo o maior tema de græ. Não elas somente, mas a ideia de que apenas uma existência descontrolada – ou seja, livre das classificações – poderia dar conta da complexidade do indivíduo. Moses discursa claramente sobre isso, ainda que sem abrir mão da poesia, na sequência “also also also and and and” e “Neither/Nor”, que trazem respectivamente a ideia de soma dos elementos que compõem alguém e, portanto, a desnecessidade de ser apenas isso ou aquilo.

Não poderia, assim sendo, que a obra não trouxesse consigo um alto grau de melancolia. “Gagarin” se arrasta em um ambiente sonoro grave e volumoso, mas a melodia surge sem força, quase desistente, ao cantar sobre um Moses que observa o mundo de longe, como um astronauta, e lamenta a falta de autenticidade na maior parte de seus habitantes. “Me in 20 Years”, por sua vez, traz o eu-lírico em um diálogo com sua versão no futuro, contemplando uma vida que – ao contrário do modelo tido como ideal – não encontra alguém para viver um amor separado apenas pela morte.

E é a finitude da vida que estrela a obra como coadjuvante, seja ela referenciada explicitamente (como em “Two Dogs”), ou apenas servindo como pano de fundo para alguém que não quer mais perder tempo com qualquer coisinha (“Bystanders”, “Keeps Me Alive”). O par apoteótico “Bless Me” e “before you go”, por sua vez, dialogam com o conceito do “eterno enquanto dure” e colocam o eu-lírico tentando se ater ao presente, sabendo que ele também passará (“You showed me your secret powers / I wish that mine / Could freeze time”).

Musicalmente, vemos Moses utilizando os recursos que possui (sejam eles de interpretação, gravação ou produção) com grande maestria na hora de saber o que cada composição e mensagem necessita. É feliz a ideia de que o artista ainda se encontra em seu segundo álbum, mas impressiona como sua maturidade é revelada dos momentos de grande volume até os mais silenciosos, e em como o maneirismo de apelar para um vocal frágil e agudo após maior intensidade funciona de maneira tão eficaz quanto simpática.

Fica a ideia de que a melhor definição que nós aqui de longe podemos dar a Moses é uma baseada em seu ofício, já que sua arte é a maior amostra das várias camadas que existem dentro de sua mente, alma ou como seu universo interior pode ser chamado. Não à toa, ou talvez até ironicamente, é sua obra que o fará ser lembrado através das gerações, conferindo o senso de imortalidade que vários artistas, inclusive existencialistas, buscam. Só é uma pena nada disso se reverter necessariamente nas conexões humanas profundas e verdadeiras que ele tanto expressa querer.

(græ em uma faixa: “Polly”)

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ARTISTA: Moses Sumney

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.