Resenhas

Muse – Drones

Sétimo álbum da banda inglesa agradará em cheio aos fãs

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Ano: 2015
Selo: Warner
# Faixas: 12
Estilos: Rock Progressivo, Rock, Rock Alternativo
Duração: 52:18
Nota: 3.5
Produção: Robert Mutt Lange

É aquela velha história: ninguém gosta de Muse, exceto seus milhões de fãs ao redor do mundo. A facção dos detratores alega que o trio não tem criatividade, que chupa sem dó clichês do Rock Progressivo setentista, que imita a fase final de Queen e que desvirtuou-se de toda a inventividade sugerida por Radiohead em meados dos anos 1990. Quem ama o som da banda tem certeza de que a receita sonora que Matt Bellamy (voz, guitarras, piano), Chris Wosltenholme (baixo) e Dominic Howard (bateria) oferecem tem tudo o que é necessário para levar o Rock adiante em sua missão de unir certa tendência por conceitos centrais em disco e cultivar seu amor por guitarras altas e melodiosas e por uma voz desesperada que comande uma multidão de convertidos em estádios e arenas em nível planetário. Dois lados da mesma moeda? Má vontade? Boa vontade em excesso?

Drones é o sétimo álbum de estúdio de Muse, certamente mais um ingrediente para alimentar ambas as facções em sua briga opinativa. O trio, é claro, não está interessado nessa discussão e segue cultivando sua música que, sim, tem inegável parentesco com momentos Pop de grupos do passado, como Rush e Queen, mas que também não existiria sem alguma pitada teatral de David Bowie e muito do Rock eletrônico nascido a partir da mutação estética que U2 propôs em Achtung Baby (1990) e, principalmente, Zooropa (1993). Daí veio Radiohead e, logo depois, seus filhotes mais próximos, Coldplay e Muse, cada um a seu modo, trazendo algum caminho para o Rock. No segundo caso, a paixão por temas épicos e gloriosos do passado do estilo sempre foi mais forte que qualquer parentesco com a modernidade, que só aparece na forma de algum efeito de estúdio, principalmente nos que engordam baixo e guitarras e fornecem uma sonoridade já bem própria. Repetindo álbuns como Absolution (2003), Resistance (2009) e The 2nd Law (2012), Muse faz de Drones um disco conceitual, cuja temática fala da falta de individualidade no mundo de hoje, do flerte constante com a violência militar ou social e de como isso leva o planeta à ruína.

A tradução dessa ideia para as músicas vem sob a forma de uma postura que opta nitidamente pelo peso nos arranjos de guitarra, privilegiando este instrumento sobre todos os outros. A voz de Bellamy também reedita seu tom desesperado e tudo está em seu devido lugar. Para reforçar o parentesco com álbuns progressivos do passado, há duas vinhetas contextuais, Drill Sargent e JFK, com menos de um minuto, não fazendo muita diferença, mas amarrando o discurso do disco. Também há um épico cheio de climas, barulhos e silêncio, chamado The Globalist, com mais de dez minutos de duração, no qual Muse assume de uma vez por todas o seu apreço pelo estilo, algo que Radiohead, por exemplo, deveria ter feito e nunca fez.

Faixas como a rápida Reapers, cheia de guitarras crocantes, The Handler, com andamento mamútico, Revolt, cheia de efeitos de multidões e sirenes, e a climática Aftermath soam bem eficientes, mas Muse se sai melhor quando coloca seu lado Pop-fã-de-Queen em ação, fazendo de Dead Inside uma eficiente homenagem e The Handler uma espécie de parente muito distante de Radio Ga-Ga, sucesso de 1984 da banda liderada por Freddie Mercury e adiciona o já tradicional chacundum de guitarras robóticas em Pshycho. Os fãs vão amar, os detratores vão espumar.

Muse segue em seu caminho, aliando inegável habilidade em misturar estéticas de épocas diferentes, reempacotando-as e tornando-as “novas” para um multidão de gente disposta a enxergar ideias e pontos de vista sobre um futuro/presente opressor e desigual. Mais que isso: usa elementos com parcimônia e inteligência a ponto de criar uma sonoridade própria em meio a tantos padrões solidificados há tempos nesse caminho. Você pode não gostar, mas a banda merece respeito. Drones a mantém viva e operante com distinção em meio ao caleidoscópico cenário atual da música popular global.

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BOM PARA QUEM OUVE: Queen, David Bowie, Radiohead
ARTISTA: Muse

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.