Resenhas

My Morning Jacket – The Waterfall

Novo álbum traz banda à vontade entre novos formatos e acenos ao passado

1,915 total views, no views today

Ano: 2015
Selo: ATO
# Faixas: 11
Estilos: Rock Alternativo, Folk Psicodélico, Alt-Country
Duração: 50:15
Nota: 4.0
Produção: Tucker Martine

A primeira vez que ouvi uma canção de My Morning Jacket foi lá em 2003/04, quando seu terceiro álbum, It Still Moves foi lançado por essas bandas. De cara, me impressionou a capacidade do grupo em propor um som enorme, amplo e de campo aberto para emoldurar canções que pareciam compostas por Neil Young em seus momentos mais Folk. Tenho certeza que os camaradas de Fleet Foxes e Alabama Shakes brilharam os olhos quando pousaram neste álbum ou no anterior, At Dawn, de 2001. A chave para transpor a barreira estética do Folk setentista e adaptá-lo ao século 21 estava ali, de bandeja. Quem pensou nisso foi o cérebro do MMJ, Jim James (que às vezes assina como Yim Yames), um introspectivo cantor de voz impressionante, nada Folk, totalmente inspirada nas inflexões Soul que o rádio AM fornecera em sua infância, lá nos cafundós de Louisville, Kentucky.

Se esses primeiros lançamentos de My Morning Jacket pareciam modernos, sua ascendência inspiradora às vezes fazia com que parecessem saídos de um Dia da Marmota ocorrido em 1974/75. Nada contra, eram as origens legítimas do som, agradavelmente absorvidas por James e sua galera. Com o tempo e a exposição mundial do grupo, tal equilíbrio entre novidade e nostalgia pendeu desigualmente, ora mais para um, ora favorecendo o outro, dando a entender que existiam duas bandas, com Jim vestindo uma interessante fantasia de Mr. Hyde ocasionalmente. O trabalho anterior, Circuital, de 2011, ainda padecia dessa crise de identidade, que não parece ter solução a partir da chegada deste novíssimo The Waterfall. A banda continua pendendo para lá e para cá, surgindo meio acomodada nessa indefinição estética, meio incapaz de assumir uma identidade. Não é necessariamente ruim, note bem.

Vejamos a faixa de abertura, Believe (Nobody Knows): entra a voz pungente de Yames sobre uma cama de teclados e pianos, logo encampada por um baticumcum eletrônico de passagem, cedendo terreno para um instrumental grandioso, que fornecerá acompanhamento Classic Rock revisitado para a canção até o fim. A bateria parece tocada do fundo de um teatro e as guitarras são crocantes e ruidosas. A faixa seguinte, Compond Fracture já faz o movimento contrário, com um fraseado de teclado que parece saído das paradas de sucesso de 1981, sobre o qual a voz de Yames já surge modificada e adaptada às condições do AOR americano daquela época. Já Like A River, a terceira canção, é um Folk florestal fantasmagórico, com Yames soando como se viesse do meio da mata de pinheiros.

Esses três modelos maiores de inspiração e musicalidade darão o tom para as canções do disco, algumas sensacionais. In It’s Infancy surge sombria, mas com revestimento de canção radiofônica de antanho, bonita e com harmonias vocais muito bem feitas. Get The Point é mais um retorno às origens Folk puras e acústicas, Spring (Among The Living) é climática e acena com a dança em volta da fogueira com uma jovem Stevie Nicks bailando aqui e ali. As guitarras de Thin Line, ao contrário, são novamente urbanas e afeitas aos crossovers Rock’n’Soul de tempos idos, coisa que James entende e executa muito bem. A maior criação desta fornada é, sem dúvida, Only Memories Remain, outra com acento Soul, totalmente inserida na melhor tradição de baladas negras compostas por branquelos – algo raro, mas existente na música Pop de bom pedigree.

The Waterfall é inspirado, colorido, bem pensado e executado com maestria. Se deixarmos o lado cri-crítico de lado e pensarmos apenas na qualidade das composições, veremos uma banda acomodada na sua diversidade, confortável com seus parâmetros e ousando ter duas, três caras no mesmo álbum, algo que, em termos de My Morning Jacket, pode significar, sim, sua identidade maior.

1,916 total views, no views today

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.