Resenhas

Nala Sinephro – Space 1.8

Jovem harpista da frutífera cena londrina de Jazz apresenta disco de estreia atmosférico, acolhedor e estonteante

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Ano: 2021
Selo: Warp Records
# Faixas: 8
Estilos: Jazz, Ambient Music, Spiritual Jazz
Duração: 44'
Produção: Nala Sinephro

Nala Sinephro é uma jovem harpista Belgo-Caribenha radicada na Inglaterra e participante da frutífera cena londrina de Jazz. Ao contrário de boa parte dos músicos dessa cena, também de ascendência caribenha, a musicista tem como base para sua obra algo que dialoga com um lado mais cósmico ou meditativo – em diálogos incontornáveis com o Spiritual Jazz de Alice Coltrane e Pharoah Sanders.

Ao trilhar esse caminho mais “pacífico”, Nala desenvolve boa parte de sua musicalidade em cima de uma variedade de timbres, texturas e (muitas) camadas. Seus estudos em  psicoacústica (ciência que busca não só pesquisar os sons em si, mas o efeito deles nos seres humanos) parecem ser de grande importância em Space 1.8, seu recém-lançado disco de estreia. Isso pode ficar evidente na enevoada e longa Space 8, que se desenvolve a partir de sintetizadores modulares, metais esparsos e o leve dedilhar da harpa empilhados em diversas camadas. Um arranjo fluido e bastante tranquilo, quase como um desdobramento jazzístico da Ambient de Brian Eno.

Em suas oito faixas (que somam pouco mais de 44 minutos), o registro cria momentos que são, ao mesmo tempo, delicados e poderosos. Mais uma vez é muito difícil evitar comparações com o Jazz Espiritual e sua tendência em explorar uma ligação com o divino (seja através de uma deidade ou do que há de divino dentro de nós). São músicas que, apesar de meticulosamente compostas e mixadas, soam como feitas à natureza, em estado bruto. Como frutos de criações celestiais ou simplesmente como ondas: indo e vindo, expandindo e encolhendo.

Apesar de não falar diretamente com o atual som do Jazz londrino, Sinephro convoca a cena presencialmente ao trazer nomes como a saxofonista Nubya Garcia (“Space 4”), o percussionista do grupo Sons Of Kemet Eddie Hick (“Space 3”) e o também saxofonista James Mollison, membro do grupo Ezra Collective (“Space 2”). Cada um à sua maneira contribui para engrandecer a obra, sempre guiada pela personalidade única de Nala.

Talvez o fato de Nala Sinephro, de apenas 22 anos, ter composto esse disco após se curar de um câncer, como forma de celebrar a vida, seja o que torna Space 1.8 tão acolhedor e, em outros momentos, meditativo. Talvez sejam seus estudos sobre como sons reverberam em nossas cabeças que deixam a obra tão completa e arrebatadora enquanto experiência. Podem ser muitos os motivos, mas o caso é que Nala apresenta uma obra que parece nos aproximar do divino, seja lá qual for o seu entendimento da palavra.

(Space 1.8 em uma faixa: “Space 5”) 

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ARTISTA: Nala Sinephro

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts