Resenhas

nana – Berli(m)possível

Novo EP da cantora e compositora baiana antecipa próximo álbum com canções agridoces

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Ano: 2015
Selo: Independente
# Faixas: 4
Estilos: Pop Alternativo, Pop Eletrônico, Eletrônico
Duração: 16:26
Nota: 4.0
Produção: nana

O adjetivo “fofo” serviu bem para definir a obra de Ananda Lima Costa, a nana. Canções feitas com carinho, envoltas em arranjos competentes e leves, cheias de letras agridoces de menina que fica no quarto pensando como enfrentar a vida sem perder a ternura. Chega um momento, no entanto, em que é preciso deixar tudo para trás e dar boas vindas ao imponderável da vida, algo que, como já dizia Belchior, sempre vem. Se o disco de estreia da menina baiana tinha graça de sobra mas contava com a proteção de um ecossistema social/cordial, Berli(m)possível traz o canto e as impressões de alguém solto no mundo, num perto-longe de saudade, solidão, tristeza e fascínio pelo novo. Aqui, senhoras e senhores, a “fofura” passa longe e isso é bom.

nana foi para Berlim, capital da Alemanha, para estudar música. Deixou tudo aqui e partiu, enfrentando pelo caminho o balanço de prós e contras que envolve esse tipo de decisão. A consequência imediata é amadurecimento, não só musical, mas pessoal. Nada como alguns dias e noites de solidão e choro para redefinir parâmetros e isso pode ser notado nas quatro canções do EP, gravadas às vésperas da partida, logo após a Copa do Mundo de 2014, que adiantam um pouco do clima do próximo álbum, a ser lançado neste ano.

A novidade imediata nas quatro canções é a adição de elementos brasileiros em grande quantidade. Ano Novo tem cavaquinho, batida marcial e melodia triste, surgindo a voz fina e frágil como quem tenta nadar pra chegar logo na margem. A tradição das cantigas de roda está presente de alguma forma, em meio ao todo. A segunda faixa, Amor, Bicho Geográfico, é quase uma Marcha-rancho, com percussão clássica e versos como “toda arquitetura ao meu redor vira pó, a saudade vem sem dó, em ré menor”, que dão conta do modus operandi da coisa toda. A faixa título talvez seja o melhor exemplo da presença harmoniosa destes elementos nativos na obra de nana. Em meio a corais tipicamente festivos, uma percussão sintetizada em boa dose reveste todo o andamento acelerado deste Frevo, com letra cheia de achados (“daqui pra frente vai ser meio diferente, eu não tenho tanta gente ao meu redor, não como antes”), falando que praticamente tudo é possível se houver disposição e coragem. Adorável. O encerramento com Recomeçar é como um fecho cheio de possibilidades para novos caminhos, tristes ou alegres, com a certeza de que a vida segue em meio a momentos que surgem em velocidades diferentes. Nosso tempo não tem pressa, canta a própria nana, num andamento em câmera lenta.

Berli(m)possível é mais que uma antecipação do próximo trabalho, tem luz própria, banzo, contemplação mas com um notável acento Pop. nana está no caminho certo, ainda que ele pareça meio inóspito e sofrido às vezes.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.