Resenhas

Nao – And Then Life Was Beautiful

Cantora inglesa revisita sua história por meio de um filtro otimista que ilumina tempos incertos

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Ano: 2021
Selo: Little Tokyo Recordings
# Faixas: 13
Estilos: R&B, Pop
Duração: 45'
Produção: OXE, Grades and fresh faces like D’Mile and Sarz

De uns tempos para cá, especialmente nos últimos dois anos, o otimismo pode ser encarado como ingenuidade. Frente ao cenário pandêmico, aliado a um contexto político cada vez mais conturbado, de líderes fascistas em ascensão, aquele que opta por adotar uma postura otimista em relação a tudo é, por vezes, encarado como um psicótico vivendo em uma realidade própria e isolada. Ou pior, um coach motivacional que busca na pandemia uma oportunidade para criar slogans e frases good vibes de Instagram. Assim, a música Pop recente não anda muito dada ao otimismo e busca uma expressão da realidade mais sóbria, realista e até, inevitavelmente, fatalista. Entretanto, o (bom uso do) otimismo não está completamente morto na música. Há ainda quem veja nesta ótica uma possibilidade de expansão criativa e pessoal. É o caso da inglesa Nao.

Vinda de uma tradição forte do R&B moderno aliado a batidas fortes do Hip Hop, Nao ganhou notoriedade a partir da metade da década de 2010. Seu EP February 15 (2016) mostrou uma voz suave e de timbre autêntico, sob produções que procuravam sair do lugar comum. A partir de então, a constante ascensão de Nao foi um caminho apenas natural. Vieram dois bem-sucedidos discos, com destaque para Saturn (2018), indicado para o Mercury Prize e o Grammy. Para além do som, as letras de Nao são um importante componente de seu sucesso – há um toque de sinceridade e abertura pessoal que passa a impressão de diário. Suas canções funcionam tanto como descarrego quanto como excerto de seus processos de reflexão, o que torna fácil para o ouvinte se identificar, pois na mesma medida em que há um diálogo de experiências, há uma série de explosões dançantes.

Apesar da temática e do título And Then Life Was Beautiful, Nao não é ingênua ao ponto de acreditar que basta uma atitude positiva para mudar o mundo. O otimismo da compositora vai no sentido de desconstruir a ideia de uma felicidade final e eterna. Seu olhar, então, se foca nas suas experiências e traz um sentimento de reconhecimento de todas as coisas boas que viveu. Neste reconhecimento surgem temas essenciais, como sua narrativa e luta enquanto mulher negra, seus amores, as angústias e incertezas, entre outros temas. O otimismo de Nao não é um autoconvencimento neurótico de que está tudo bem, mas uma passada a limpo em sua a vida que procura um saldo positivo. Assim, o R&B tem um tom mais alegre e ensolarado de um Pop radiofônico. Certamente, se trata do trabalho mais acessível da inglesa até então. Mesmo assim, ela não deixa para trás as marcas autênticas de seu trabalho.

A faixa-título abre o registro como uma tentativa de mostrar ao ouvinte a importância dessa frase, como uma espécie de prólogo definitivo para trazer suas experiências de gratidão – sem o sentido coachzado do termo. “Glad You’re Gone” traz as referências R&B para o ano 2000, repleto de suingue e batidas lentas. Neste disco, Nao convida uma série de artistas para partilhar de sua visão. O potente single “Antidote”, por exemplo, é acompanhado pela voz do cantor nigeriano Adekunle Gold, trazendo um ritmo envolvente para a pista de dança. A guitarrista e cantora Lianne La Havas empresta a malemolência de seu dedilhado e suavidade de sua voz em um mix harmônico e iluminado em “Woman”. “Postcards”, por sua vez, se envolve em um mistério oculto pelos sintetizadores e texturas frágeis e à voz inconfundível de serpentwithfeet. Por fim, “Amazing Grace” é quase um hino gospel que celebra todas as experiências gratificantes que a compositora teve em sua vida e que ganharam uma representação nesse disco.

And Then Life Was Beautiful traz uma faceta otimista de Nao para além de um estereótipo ingênuo. Ela conta sua história a partir de uma perspectiva que a permita dar valor a tudo que foi vivido. O resultado é um disco que respeita a artista tanto do ponto de vista sonoro-instrumental, quanto do narrativo-lírico, e ela soa segura e espontânea. Um disco vindo de um período conturbado, porém feito com um olhar sensível e, talvez por isso, otimista.

(And Then Life Was Beautiful em uma faixa: “Antidote”)

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ARTISTA: Nao

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.