Resenhas

Natalia Lafourcade – Cancionera

Vinculada ao impressionismo, cantautora mexicana se esconde sob alter ego para reverenciar a música popular, expondo descompasso entre letras frágeis e sonoridades suntuosas

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Ano: 2025
Selo: Sony Music Entertainment Mexico
# Faixas: 14
Estilos: Pop latino, Folk, Jazz, Bolero
Duração: 76’
Produção: Adan Jodorowski

Chegada a vez de a América do Sul assistir ao show De Todas las Flores (2022), no segundo semestre de 2023, a cantora mexicana Natalia Lafourcade escolheu lançar mão de uma postura teatralizada nunca antes vista em suas apresentações. Em Buenos Aires, diante de uma Movistar Arena lotada, surgiu usando um vestido preto, bufante, que remetia a uma flor negra. Enlutada, via-se da mesma forma que no clipe da verborrágica canção “Maria la Curandera”, de modo a alimentar um apreço pelo visual que se manteve como um pilar na construção de seu trabalho seguinte, Cancionera (Sony Music, 2025), lançado em abril.

Mais uma vez produzido pelo músico franco-mexicano Adan Jodorowski, com quem a autora estabeleceu uma importante afinidade criativa, a obra se desvela sob um prisma de irregularidades. A começar pelos mistérios que envolvem seu alter ego, a tal Cancionera — figura que se coloca como a condutora de um trajeto que transforma emoções em pontes, conectando o íntimo e o universal. Diante da possibilidade óbvia de relacioná-la à errância dos trovadores clássicos, a cantora parece dar um passo atrás. Ao habitar o crepúsculo das paixões, encoraja o ouvinte a percorrer noites de amores que esfriam, em um movimento que poderia funcionar mais de forma avulsa.

Rico em melodias que projetam o bom gosto já característico da cantora, ocupante de um lugar entre as mais respeitadas da música em espanhol, o projeto tem início e se encerra com duas faixas instrumentais. São elas “Apertura Cancionera” e “Lágrimas Cancioneras”, excelentes exemplos de uma intenção sensorial e que também soam como acenos à atmosfera tradicional das eras de ouro do cinema e do rádio.

Conforme as coisas avançam, o brilho não se mantém ao observarmos que falta apreço por uma ordenação lógica dos capítulos ao longo do miolo. Como um todo, a narrativa expõe despreocupação em demonstrar ao ouvinte sua natureza conceitual, mal aproveitando a encarnada narradora, um ser despretensioso e que dá a entender desprezar qualquer pedestal. Na faixa título, a exuberância dos arranjos destaca o momento mais potente do novo repertório, que se ergue reiteradamente sobre a longevidade. Ela desdenha sem pudor das métricas do streaming ao superar, com regularidade, os cinco ou seis minutos de duração.

Faz-se necessário tempo para assentar as emoções. Em consequência, Natalia se dedica às ramificações que circundam a nostalgia, um sentimento complexo e que a leva a expor um desejo de voltar a se esbarrar com surpresas que só podem ser encontradas nos rincões de uma vida de devoção à música. Seu discurso busca equilibrar asas e pés no chão por entre flautas, pianos, jaranas, violões e violinos, que se expandem e se contraem conforme a direção do vento.

Quem acompanha suas lives no Instagram sabe que, com frequência, a artista se dedica a interpretar “O Pato”, música da dupla Jayme Silva e Neuza Teixeira, eternizada nos vocais de João Gilberto. Agora, ao mostrar as inéditas “Cocos en la Playa” e “El Coconito”, Lafourcade evoca esse mesmo senso de humor e experimentação, funcionando letras aparentemente fáceis a sentidos profundamente carregados — brincando perigosamente com a forma da canção popular mais tradicional ao ficar a um triz da banalidade.

A referência a João Gilberto não é equívoca. Em “De Todas las Flores”, ela já tinha reverenciado a bossa nova em “Mi Manera de Querer”, single que é espécie de prima-irmã discursiva de “Amor Clandestino”. A recém-chegada é uma ode aos amores livres e se constrói na companhia do canto e da guitarra flamenca de Israel Fernández. Em uma versão acústica, incluída como bônus, conta ainda com a presença de Diego del Morao.

É nesta fresta que a linguagem visual entra em ação, reforçando o estofo atribuído ao projeto. Um flerte com as emoções contraditórias, sempre triunfantes quando exploradas por Natalia, ganha espaço na simplicidade do encontro entre violão e violoncelo, expoentes de natureza jazzística. “Mascaritas de Cristal” propõe um desvendar de ludibriações em que as mentiras perdem força. Como no clássico “Puro Teatro”, cantado aos berros por La Lupe, a artista sentencia sua revanche: “Não quero ver sua sombra / Nem sua cara mais linda / Sua loucura reprimida me parece ficção / É um drama desmedido que habita lá, na sua mente / Quero vê-lo presente enquanto canto esta canção”.

As noites solitárias também embalam outros momentos memoráveis. “La Bruja (Versión Cancionera)” vem interpretada de maneira integralmente crua, enquanto “Luna Creciente”, uma inconfundível balada, ganha tração na delicadeza de uma parceria com o duo mexicano Hermanos Gutiérrez. A partir dos 3 minutos, a canção incorpora beats eletrônicos e se desdobra em uma embriagante prece de amor. “Tenho palavras cinzas na boca e uma voz bêbada de amar / Berço de luz escondida, traga-me de volta a paz / São solitárias as noites / São estranhos os dias se não chegas tu”, confessa, munida de seu violão em pleno deserto sentimental.

O bolero, um velho conhecido seu e responsável por eternizar interpretações como a de “Soledad y el Mar” (2018), arremata a viagem na dobradinha “El Palomo y la Negra” e “Cariñito de Acapulco”, sendo esta última mais atmosférica. Ao apontar para o que pode ser uma nova direção do cancioneiro popular latino-americano no século 21, Natalia Lafourcade se situa nas noites de inquietação, mas sem se arriscar. No escuro de um repertório que é belo, na mesma proporção em que é frágil, reafirma seu título de herdeira incontestável de referências como Mercedes Sosa e Violeta Parra, mas não sem antes protagonizar uma derrapada.

Ao deixar de lado políticas mais literais de escrita, perde a chance de destacar seu México hermoso e as fronteiras do sensível como terrenos igualmente instáveis. Projetar incoerências e, sobretudo, dores do presente, seria em “Cancionera” mais uma forma de endossar os anseios e a complexidade da arte popular, sempre pronta para pensamentos e embates frontais.

(Cancionera em uma faixa: “Cancionera”)

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