Resenhas

NCZA Lines – Pure Luxury

Laboratório de Michael Lovett realiza fusões entre Disco e R&B e nos convida para a pista

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Ano: 2020
Selo: Memphis Industries
# Faixas: 9
Estilos: Indie Pop, Synthpop, Funk
Duração: 38'
Produção: Michael Lovett

Michael Lovett é uma verdadeira esponja criativa. Sua carreira lhe proporcionou experiências ricas, contribuindo para construir uma sonoridade que bebe de diferentes referências e que chama atenção pelos detalhes. Para mencionar algumas, ele atuou como instrumentista de Christine and The Queens durante as últimas turnês da artista, e também já colaborou como produtor em composições para Hot Chip e Metronomy, talvez o período que mais influenciou sua produção.

Um dos grandes diferenciais de Lovett é como ele trouxe tudo isso para seu projeto pessoal, NCZA Lines, aliando as referências a traços pessoais marcantes. Há uma dosagem de elementos. Essa receita já vem rendendo frutos interessantes, como o dançante Infinite Summer, ode retrowave aos anos 80/90, evocando nomes como Prince, Air e Depeche Mode.

Mas, agora, seis anos após seu último registro, Michael Lovett coloca nova dinâmica em seu processo de composição. Pure Luxury é um disco que traz o próprio produtor como parâmetro, construindo uma identidade sonora sólida e inquestionavelmente autêntica. Não entenda mal, os anos 80/90 ainda continuam sendo nortes criativos. Até mesmo a Disco do final dos 70 (e o crescente revival durante a segunda metade de 2010) ganha espaço aqui. Mas o grande lance de Pure Luxury é que ele não é construído sob essas referências diretas, mas a partir de interpretações de Michael Lovett.

Dessa forma, somos inundados com uma sensação de estranha familiaridade. Parece Disco, parece R&B, parece Synthpop, mas não é exatamente isso ou aquilo. É uma mistura precisa e azeitada com toque versátil da personalidade de Michael. Uma dose de extrema classe juntamente a um tempero nostálgico. Dançante, mas reflexivo.

O disco abre com a faixa-título, uma construção Indie trazendo um pouco de Peter, Bjorn and John, mas estimulada por sintetizadores psicodélicos hipnóticos. Já “Real Good Time” nos convida a dançar no suingue do Synthpop com adereços de um Funk caprichado no groove. Arranjos de cordas dão o tom sedutor (e até mesmo, brega na medida exata) na excelente “For Your Love”, canção que conta com a participação da cantora americana VIAA. “Opening Night” é um parque de diversões para entusiastas de sintetizadores dos anos 80, tanto no grave potente quando nas texturas etéreas ao fundo – dançante e confortável. Por fim, “Tonight Is All That Really Matters” encerra esta experiência Disco exaltando o melhor do espírito Dancing On My Own, com batidas envolventes e uma construção tristinha de fazer inveja a Robyn.

Com este novo disco, Michael Lovett exibe um amadurecimento de tudo aquilo que absorveu trabalhando com diferentes artistas. Mais do que disso, ele se coloca como referência primordial do seu trabalho e se aprofunda nas possibilidades de transformação de gêneros tão distintos. Não é um álbum apenas de Disco, ou apenas de R&B. É um laboratório de exploração e experimentação, e Michael é o cientista maluco que testa os limites de suas ambiciosas fusões. Fusões que exigem energia para serem apreciadas, tamanha a forma como nos envolvem e nos convidam para dançar. Um convite impossível de negar.

(Pure Luxury em uma faixa: “Opening Night”)

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ARTISTA: NZCA Lines

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.