Resenhas

Neil Young – Peace Trail

Novo disco de Neil Young confunde espontaneidade com largação sonora

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Ano: 2016
Selo: Reprise
# Faixas: 10
Estilos: Rock, Folk
Duração: 38:09
Nota: 2.0
Produção: Neil Young e John Hanlon

Cá estamos com Peace Trail, o 37º álbum da carreira vitoriosa de Neil Percival Young. O velho canadense, 71 primaveras bem vividas no mundo da música, vem numa onda contestadora que já dura alguns bons anos. O último trabalho, The Monsanto Years, dava bem aplicadas cacetadas no neoliberalismo das empresas transnacionais, indo das que estão presentes no cotidiano de forma ostensiva às que estão lá de forma sorrateira, detonando saúde, ecologia, emprego e bem estar das pessoas no planeta, numa ponta à outra da cadeia produtiva. Com a ajuda de uma banda de moleques, a Promise Of The Real, Young chegou a surpreender os céticos (eu incluído) e fez um álbum relevante e engajado, sem deixar de lado a musicalidade. Este novo trabalho vem na sequência desse clima, mas sem a coesão e o cuidado que o anterior exibia. Tudo aqui parece um rascunho, uma reunião de velhos coiotes para resmungar algumas musiquetas. Infelizmente.

A ideia é pegar apenas o essencial. Dessa forma, Neil vem com vocais, violão e harmônica, secundado por dois bons músicos: o lendário baterista Jim Keltner e o discreto – porém experiente e versátil – baixista Paul Bushnell. A presença dos dois é traduzida na habilidade que ambos possuem, especialmente no rápido aprendizado das canções, uma vez que, a partir de declarações em entrevistas sobre o disco, as composições foram todas gravadas em seus primeiros ou segundos takes. Ou seja: Young tentando passar o clima de um disco quase ao vivo? Se o movimento foi intencional, não serviu para mudar em nada a pouca inspiração das composições. Lá estão a guitarra do Véio, bem tocada e marcando presença como sempre, sua voz frágil sempre forte, mas, a partir daí, um vácuo de criatividade impressionante. Não se trata de mais um álbum Folk de Young, ou de um trabalho mais raivoso, é um disco que fica no meio do caminho para todas as direções que ele já tomou na carreira.

As gravações têm pinta de ensaios gravados. A mixagem é muito crua, dá pra ver que os músicos não foram capazes de absorver totalmente as variações e possibilidades das canções. Os arranjos são repetitivos e pobres, beirando a indigência. Mesmo assim, com um ambiente quase estéril, a faixa-título, que abre o disco, tem uma boa levada e bom trabalho de guitarras de Young. Já na segunda faixa, Can’t Stop Workin’, uma boa crítica à necessidade de trabalhar até mais tarde, diante dos ataques que as instâncias de bem estar social vêm sofrendo pelo neoliberalismo, Neil parece estar ainda sem uma noção exata da própria estrutura da canção, tornando-a semelhante à um improviso em busca de letras e ideias. O timbre de bateria e percussão de Keltner é agudo e irritante.

O clima de improviso descuidado segue pelo álbum adentro. Algumas canções surgem como boas promessas, caso de Terrorist Suicide Hang Gliders ou My Pledge, mas esbarram no amadorismo premeditado, que, à medida que o disco avança, vai se tornando irritante. Nesta última, inclusive, um vocal duplo, no qual Young canta e recita a letra ao mesmo tempo, chega a dar tristeza. Se está a fim de dizer algo, meu amigo, escreva um livro. Sua palavra é importante e muitos vão ouvi-la.

É admirável a disposição de Neil em cutucar o sistemão depois de 71 anos, algo que só os grandes revolucionários e inquietos exibem com a chegada da velhice. Não dá pra duvidar de seu espírito indômito, sua obstinação e toda uma série de qualidades que não cabem na análise de um álbum de canções. Aqui Neil segue em débito com seu público, que espera um disco minimamente instigante. Nos últimos dez, quinze anos, ele só arranhou essa possibilidade algumas vezes. Pena.

(Peace Trail em uma música: Peace Trail)

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BOM PARA QUEM OUVE: Jim James, Bob Dylan, Fleet Foxes
ARTISTA: Neil Young
MARCADORES: Folk, Rock

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.