Neneh Cherry – Broken Politics

Cantora sueca lança álbum engajado e exuberante

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Ano: 2018
Selo: Smalltown Supersound
# Faixas: 12
Estilos: Pop Alternativo, Eletrônico
Duração: 46:01
Nota: 4.5
Produção: Four Tet, Robert Del Naja

Neneh Cherry é dessas artistas identificadas intrinsecamente com a modernidade. Surgiu no fim dos anos 1980, mas já colocou o pé na porta da música Pop, arremetendo e antecipando a cultura Eletrônica da década seguinte com um hit atemporal, Buffalo Stance, cheio de samples, energia, novidade e informação. Era uma espécie de elo perdido às avessas, uma vez que mostrava o que viria quatro, cinco anos depois. Junto a Massive Attack, Neneh estava à frente de seu tempo. Hoje, exatos 30 anos depois desta primeira amostra de genialidade, a cantora sueca segue com sua versão sensacional de música pop, bem informada, constituída e à prova do tempo. Broken Politics é um dos álbuns do ano e eu já te digo isso logo neste primeiro parágrafo do texto.

A produção ficou a cargo de Kieran Hebden, o próprio Four Tet. Foi ele quem pilotou o estúdio no trabalho anterior, Blank Project (2014) e agora amplifica seu poder de construção de paisagens sonoras mescladas de tipos de eletrônica distintos, seja a oriunda de aparelhagens mais formais – sintetizadores, teclados, computadores – como de programas baixados em dispositivos portáteis. A esta visão ultramoderna, Kieran permite somar timbres e instrumentos convencionais, resultando numa convincente radiografia das contradições da própria sociedade neste 2018, refletindo dilemas, dicotomias, indecisões e essa discreta batalha pela manutenção da tradição em um mundo com cada vez menos alma. Neneh fornece o sentimento que permeia os sons, transformando matéria constituída de zeros e uns nesta alma que tanto procuramos.

Além dessa alquimia sonora e da atemporalidade inevitável, Neneh ainda escreveu letras e forneceu interpretações sentimentais e sintonizadas com esta sociedade dual que vemos hoje. Isso significa dizer que Broken Politics é um feixe de 12 canções que refletem a política em vários planos, seguindo a noção – correta – de que tudo é política e, mais ainda, que tudo deve ser político. Isso esvazia a ideia tacanha de que só há a variante partidária do termo, ultrapassada há tempos nos lugares mais evoluídos do planeta. A partir disso, Neneh vai apresentando temas como pobreza, imigração, fascismo, intolerância, vazio da mídia, fake news e tudo mais. O disco é quase um milagre.

A habilidade do pessoal envolvido evita que este seja um álbum panfletário. Há canções que irão para as listas de melhores faixas do ano e que têm predicados de sobra para atravessarem o tempo. A primeira deste time é o single Kong, que exibe a marca indelével do Trip Hop de Massive Attack e similares. Não é espanto, uma vez que o próprio Robert 3D Del Naja, um dos cérebros pensantes do grupo inglês, assina a co-produção da faixa. A batida marcial, a levada insinuante de Reggae, os teclados como gotas na chuva incessante, tudo é lindo e perfeito. Faster Than The Truth é outro pequeno milagre, com letra falando sobre “notícias dadas sem tempo para serem checadas” e um looping clássico de bateria, feito por Steve Gadd para Paul Simon há quase cinquenta anos, na canção 50 Ways To Leave Your Lover. Natural Skin Deep é um arrasa-quarteirão dançante, cheio de variantes de batidas, teclados em cascata e sample desnorteante do jazzista Ornette Coleman no meio de tudo. Outra canção, Shot Gun Shack, fala de armas ao alcance de quem não pode/deve em meio a batidas secas.

Enxuto e exuberante. Contundente e aveludado. Direto, mas cheio de nuances. Este é Broken Politics, um dos melhores discos do ano e talvez o ponto alto da carreira de Neneh Cherry. Não deixe de ouvir por nada neste mundo.

(Broken Politics em duas faixas: Kong e Faster Than The Truth)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.