Resenhas

Nevermen – Nevermen

Novo projeto de Mike Patton naufraga no experimentalismo vazio

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Ano: 2016
Selo: Ipecac
# Faixas: 10
Estilos: Experimental, Rock Alternativo, Hip Hop Alternativo
Duração: 38:29
Nota: 2.5
Produção: Mike Patton, Dosone, Tunde Adebimpe

Se você é da turma de crentes nos poderes sobrenaturais/musicais de Mike Patton, aqui está mais uma banda para a sua delícia. Nevermen é um trio que tem também as presenças do rapper Doseone, em cuja certidão de nascimento está escrito Adam Drucker e Tunde Adebimpe, mente criadora de TV On The Radio. Estes sujeitos, você sabe, não são exatamente afeitos a fazer música fácil, Pop, descomplicada, pelo contrário, são especialistas em enfiar texturas, efeitos, experimentos, coisações mil no pobre formato de canção popular, aquele de três, quatro minutos de duração-refrão-solo-repete refrão. Nevermen não está aí para isso, sua missão é borrar fronteiras entre experimentalismo e previsibilidade. Certo, não existiria problema se Patton, que é o cara mais conhecido dos três, quer ele queira, ou não, é um artista que sempre fez esse tipo de jornada exploratória, por um tempo talvez longo demais. E isso pode cansar.

A verdade é que os fãs de Patton comprarão e consumirão qualquer produto musical que ele lançar, seja Rock, Hip-Hop ou música para sonorizar disputas de bingo, não será diferente com Nervermen. A receita é a mesma de bandas como Faith No More e Mr.Bungle, talvez os mais bem sucedidos projetos da carreira de Mike: misturar esquisitice nerd com Rock urbano alternativo pesado e elementos de música negra contemporânea, basicamente Hip Hop, criando um Frankenstein que pode assumir forma mais ou menos estranha, dependendo do estado de espírito do nosso amigo. Adebimpe e Doseone surgem como escudeiros dessa empreitada, ainda que os três afirmem que o trio não tem liderança definida, sendo ele mesmo uma “criação coletiva”. Tá bem, então.

Algumas passagens deste primeiro álbum de Nevermen soam muito parecidas com uma hipotética versão enxuta de The Mars Volta, com efeitos eletrônicos em vez das piruetas instrumentais, mas com o mesmo clima, caso da canção de abertura, Dark Ear, que tem mirabolâncias em todas as direções, chegando a confundir o ouvinte, a esta altura procurando o fio da meada diante de tanta preocupação com o estranho. Treat Em Right já desacelera o andamento e investe nas texturas e batidas próximas do Hip Hop atual, bastante eletrônico e sintético, com boa performance vocal e certa semelhança com alguma criação perdida de Faith No More safra 1997. Às vezes o desejo prioritário de modificar e centrifugar as canções coloca tudo a perder, caso da faixa seguinte, Wrong Animal Right Trap, com guitarras soterradas em efeitos e certa estrutura de canção Pop adulterada, com resultado fraco.

A canção seguinte, Tough Towns tem vozerio indistinto à la Tricky e refrão que explode em melodia mais ou menos linear, mas esta lógica é quebrada em nome de interlúdios de sons deconexos, barulhos, efeitos, chapação musical que não vai a nenhum lugar distinto. Hate On é um pouquinho melhor, com vocais que poderiam ser de The Beach Boys, caso eles fossem atacados por zumbis, mas a sonoridade familiar é logo deixada para lá, sendo substituída por percussão e uma levada dolente. Logo depois está a faixa mais acessível do álbum, a boa Mr. Mistake, com vocais interessantes, instrumental na fronteira entre Hip Hop e Reggae e psicodelia colorida, não abdicando dos requisitos mínimos da canção. Shellshot é típica criação da mente estranha de Patton, com climas sombrios, melodia de caixinha de música e uma voz doce murmurando “I’ll shoot you” insistentemente. Poderia ser interessante lá em 1992, agora, sei lá. At Your Service também pega emprestado o caos sombrio das criações de Tricky e amplia o foco de luz para passagens de Hip Hop alternativo noventista, amarrando tudo com ar novidadeiro. Non Babylon tem nuances de luz e sombra, melodia explodindo em algum momento próximo do que poderia ser um refrão, mas nada muito além. O fecho com Fame II The Wreckoning tem tinturas psicodélicas escuras, nada alegres, mas que levam a canção a se desenvolver em crescendo, passando do som ambiente para uma melodia com batida interessante e vocais legais.

Nevermen é fruto da união descompromissada de três músicos a fim de experimentar e fazer música “fora da caixa”, como diria seu amigo publicitário/coorporativo. A ideia é sempre boa mas os resultados obtidos aqui ficam muito aquém dos trabalhos dos sujeitos em suas bandas titulares e acenam para um desgaste neste tipo de abordagem. Não emociona.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.