Resenhas

New Order – Music Complete

Novo álbum da banda inglesa tem luz própria e remonta à glória dos anos 1980

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Ano: 2015
Selo: Mute
# Faixas: 12
Estilos: Eletrônico, Rock Alternativo, Indie Rock
Duração: 72:39
Nota: 4.0
Produção: New Order e Stuart Price

Vamos combinar uma coisa: a menos que haja uma hecatombe de proporções bíblicas, New Order jamais será capaz de lançar um trabalho que mereça menos de três estrelas/bananas/nota 7. A “imorrível” banda de Manchester, de tantas glórias, influências e tradições, pode viver marés de pouca inspiração mas seu senso melódico, suas soluções harmônicas e a inigualável mistureba de Rock alternativo inglês atemporal com Eletrônica assimilada na aurora de Kraftwerk como banda Pop, forneceu e ainda fornece uma liga difícil de ser batida. Claro, é provável que esse pessoal não consiga lançar álbuns tão importantes quanto Power, Corruption And Lies (1983), Low Life (1985) ou Technique (1989), mas a sonoridade que sai dos sulcos imaginários deste nono rebento, Music Complete não mente: é um disco de New Order, está tudo por aqui. E está mesmo.

O disco debutou na parada de álbuns ingleses em segundo lugar, configurando o melhor desempenho de um álbum lançado pela banda desde Republic, gravado em 1993, que vinha puxado por dois singles fortes: Regret e World. Aqui, agora, a função de apresentar ao público o novo feixe de canções coube às simpáticas Restless e Plastic. A primeira, faixa que abre os trabalhos em Music Complete, é New Order clássico em sua faceta mais próxima do Rock de guitarras inglês oitentista, com refrão simpático, vocais de apoio da reintegrada Gillian Gilbert, devidamente instalada à frente das teclas, posição que não ocupava desde 2001. Plastic foi lançada há poucos dias, trazendo a participação de Elly Jackson (La Roux) nos vocais de apoio e mostrando o quanto a banda ainda consegue misturar sua modernidade constante com um senso de nostalgia saudável. Mesmo assim, essa canção é absolutamente sintonizada com o que desejamos de um hit Pop eletrônico nesses dias de hoje, com tudo nos seus devidos lugares.

Music Complete, no entanto, vai muito mais além que seus dois singles de antecipação. Elly Jackson ainda participa de outras duas faixas, as funkeadas Tutti-Frutti, com grooves além do normal e instrumental totalmente oitentista e a endiabrada People On The High Line, com um riff de guitarra sinuoso e fraseado de piano House que lembra alguns bons momentos de Technique. Surpresas ainda surgem fortes com Stray Dog, maravilhosa canção com vocais de Iggy Pop, na qual o arranjo bolado por New Order confere uma espécie de dança em câmera lenta, cheio de teclados esvoaçantes e um trabalho de bateria eletrônica/baixo sintetizado que reedita grandes e dourados momentos da banda no início da carreira, com ênfase maior nos ritmos. A boa Academic é mais do velho New Order guitarreiro, cuja tônica que norteou seu álbum de 2001, Get Ready, abrindo caminho para Nothing But A Fool, que segue na mesma linha.

A participação de The Chemical Brothers em Unlearn This Hatred faz diferença no resultado final, ainda que o arranjo soe com informações demais para o ouvinte, com uma batida sem muita relevância. The Game é prima-irmã de Krafty, do álbum de inéditas anterior, Waiting For The Sirens Call, boa, dançante e crocante na medida certa. A presença de Brandon Flowers na canção de encerramento, Superheated, propulsionada por um binômio de batidas imediatistas e teclados épicos, é um bom exemplo do que New Order entende por contemporaneidade musical, lembrando, não por acaso, a sonoridade que Flowers oferece em seus trabalhos solo.

Este disco entra para a história da banda como o primeiro do qual o baixista extraordinário Peter Hook não participa, privando o ouvinte das características notas agudas, tiradas das quatro cordas. Com a presença de Tom Chapman em seu lugar, além de Phil Cunningham, presente desde o álbum anterior, New Order se viu diante do desafio de empreender uma jornada musical na qual precisou dar provas de relevância no cenário atual da música e sair-se bem sem uma de suas principais assinaturas sonoras. Saiu-se bem em ambas e, de quebra, entrega um disco que é seu melhor trabalho em, vejamos, 22 anos. Boa.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.