Nick Cave & the Bad Seeds – Skeleton Tree

Banda lança obra poética marcada pelo luto

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Ano: 2016
Selo: Bad Seed Ltd
# Faixas: 8
Estilos: Rock Alternativo, Art Rock
Duração: 39:42
Nota: 5.0
Produção: Nick Cave, Warren Ellis, Nick Launay

“Aquele que perde um filho nunca foi nomeado, diferentemente do órfão ou do viúvo – trata-se de uma dor sem tamanho e sem nome”. O escritor Tiago Ferro, no emocionante relato intitulado Já não mais terça-feira, mas também não era quarta, transcreve a sensação diante da morte de sua filha: um sofrimento injusto, que de tão grande, se torna inominável.

O décimo sexto álbum do músico Nick Cave ao lado de sua banda Nick Cave and the Bad Seeds vem marcado pelo pesar da mesma tragédia, e é graças a ele que o artista consegue dar nome – e voz – a sua dor: Skeleton Tree.

Obras de arte estão subjugadas ao seu contexto de criação. Em geral, um critério para o reconhecimento de grandes obras de arte está na sua relevância simbólica dentro do cenário sócio-cultural no qual surgiu. Obras de arte geniais, por sua vez, são aquelas que, mesmo realocadas do seu pretexto original, e portanto ressignificadas, são capazes de emanar ainda mais força. Skeleton Tree é uma obra que fala de amor, de fé e de arrependimento, mas nasce marcada pelo luto sobre a morte de um filho.

Não é incomum a tentação de se interpretar uma obra de arte por um viés biográfico. Dois exemplos recentes no mundo da música são bastante relevantes no que diz respeito a ressignificação de uma obra de arte por conta da história pessoal de artistas. Não faltaram menções ao término do casamento de 23 anos de Thom Yorke com a chegada de A Moon Shaped Pool da banda inglesa Radiohead, assim como não parecia possível olhar para Black Star como uma referência ao câncer quando David Bowie faleceu alguns dias após o lançamento de seu trabalho. Assim como esses últimos, Skeleton Tree é o primeiro trabalho de Nick Cave após o falecimento de seu filho de 15 anos. No entanto, todos os três álbuns compartilham outra característica: foram criados antes das tragédias vividas por seus compositores, o que as modifica é o nosso olhar sobre elas.

Para nós espectadores, fica difícil decifrar o que é uma referência explicíta à história pessoal dos músicos, o que é uma profecia, uma premonição ou um luto simbólico. No entanto, por mais que forçar a interpretação de suas letras no sentido biográfico possa soar determinista, não há dúvida de que um sentimento de pesar acaba por imprimir a sua energia durante a elaboração dos trabalhos.

Isto dito, é fácil perceber porque Skeleton Tree dita um cenário ao mesmo tempo belíssimo e difícil de ouvir. Jesus Alone, a faixa de abertura, contém os versos “you fell from the sky, crash landed in a field, near the river Adur”, nos quais a analogia com o trauma recente de Nick Cave torna-se praticamente inevitável. O clima do álbum é bastante obscuro. No entanto, a voz grave do cantor declama letras recheadas de um lirismo sensível, um território seguro no qual Cave é bastante proficiente, figurando um um estilo musical que segue a linhagem de outros patronos, como Leonard Cohen e Serge Gainsburg.

“A maioria de nós não quer mudar, o que queremos são pequenas modificações sobre o modelo original. Continuamos a ser nós mesmos, esperançosamente versões melhores de nós mesmos. Mas o que acontece quando ocorre um evento tão catastrófico que você simplesmente se transforma?” A resignação de Nick Cave diante do que nos constrói – o tempo e a dor -, presente no trailer de seu documentário One More Time With Feeling serve muito bem como o contexto do que é Skeleton Tree. “O show deve continuar” é um lugar comum no mundo da arte, a noção de que, apesar dos pesares, a poesia sempre continuará a existir. Ou ainda, é uma expressão que revela justamente que a arte pode existir como antídoto para o sofrimento.

Cabe ao pai decidir-se como portar-se diante de uma tragédia inominável, assim como ao artista a responsabilidade de expressar-se sobre o assunto. A unanimidade de notas máximas que Skeleton Tree nas críticas internet afora prova que o álbum é mais do que uma expressão simbólica: é uma experiência que faz os ouvintes encontrarem conforto na própria dor.

(Skeleton Tree em uma música: Magneto)

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Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.