Resenhas

Niki & The Dove – Everybody’s Heart is Broken Now

Dupla sueca faz arqueologia musical dos anos 1980 em novo álbum

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Ano: 2016
Selo: Ten Music Group
# Faixas: 12
Estilos: Synthpop, Pop Alternativo, Eletrônica
Duração: 60:04
Nota: 4.0
Produção: Gustaf Karlöf

E lá vamos nós para resenhar mais um artista do século 21 que vive, respira, pensa e compõe como se quisesse estar em 1985/86. Everybody’s Heart Is Broken Now, segundo álbum da dupla sueca Niki & The Dove é, para usar um termo caro aos fãs de ficção científica, uma tentativa de furar o continuum espaço-tempo e voltar atrás, lá para os tempos em que cantoras Pop como Madonna, Cyndi Lauper e Stevie Nicks, além de vários grupos em atividade durante os 80’s, emplacaram nas paradas de sucesso um padrão de música fácil, bem feita, bem produzida e com instrumental que comportava arranjos de sintetizadores, drum machines, teclados e uma parafernália eletrônica eficiente e uniformizante, responsável por uma assinatura sonora bastante nítida, pelo menos para quem viu este modelo de canção triunfar no gosto das multidões planetárias dos tempos idos.

Engraçado pensar nisso, porque Niki & The Dove, pelo menos em seus trabalhos iniciais, parecia mas afeito a uma via mais experimental em relação a este manancial de inspiração oitentista. Este conceito, pelo menos por enquanto, neste novo álbum, cai por terra em favor de um caprichado trabalho de recuperação do formato de Pop para as multidões, com intervenção eletrônica sutil e em nível instrumental, de timbres, de climas. Não é a substituição de sonoridades acústicas por digitais, mas uma espécie de complementação, de maquinário disponível nos estúdios na época, que fizeram a mente e iniciaram vários produtores no ofício. Mais que um álbum revisionista de superfície, este novo trabalho da dupla se dispõe, assim como Junk, de M83, a revisitar e reinterpretar algo feito lá. E se sai bem.

O single So Much It Hurts é um exemplo disso. Seu instrumental me fez lembrar de um hit de 1987, do conjunto americano Foreigner, chamado I Don’t Wanna Live Without You. O grupo, forjado no terreno do Hard Rock em meados dos anos 1970, chegara à nova década sob influência desta tal sonoridade que mencionamos. O resultado? Migrou para baladas de estúdio, cheias de teclados, sintetizadores, algo que a dupla sueca tenta recriar aqui. O resultado é bem bom, com a vantagem da vocalista Malin Dahlström ser dona de um belo registro, sensual e ativo na medida certa. Outra canção, You Stole My Heart Away, tem uma levada tecladista marcada por uma linha de baixo engordada em granja. A certa altura entram palmas sintetizadas e todo um jeito de corpo que faz o articulista esboçar um sorriso e se lembrar de outro semihit oitentista: Dress You Up, de Madonna safra Like A Virgin.

Esta sensação de revisita minuciosa está por todos os cantos do álbum, mas de um jeito que não nos faz pensar em falta de originalidade ou uso de algum expediente para mascarar eventual pouco talento. Sabemos que não é o caso da dupla. É louvável a aplicação quase estudiosa de timbres e sons que conduzem faixas como You Want The Sun, adoravelmente empurrada por batida elegante e a meio caminho entre a dancinha e a contemplação; a lentinha e cheia de efeitos vintage Scar For Love; Coconut Kiss, que esbanja tropicalices na beira da piscina do hotel em Orlando, tocando como trilha sonora daquela foto amarelada que você tirou quando viajou pra abertura do Epcot Center.

Duas outras canções, Brand New e Miami Beach, tentam ir em reverso, procurando aliar algumas concepções de 2016, mas passam despercebidas, com a sensação de conforto reestabelecida com Pretty Babies, com cara de cruzamento entre vocais de Stevie Nicks e alguma produção de segundo escalão da época, cheia de teclados de procedência duvidosa. Everybody Wants To Be You é misto de balada derramada e canção elegante, com pianos acústicos e instrumental seguro. A felicidade Synthpop volta com os fraseados de Shark City (Tropico X) e o chacundum nórdico-guitarreiro-tecladístico de araque que conduz Ode To Dance Floor, autêntica e adorável como uma nota de 3 reais, mas respeitável em seus 7 minutos e meio.

Everybody’s Heart is Broken Now é belezura total ensolarada. É curtível por velhuscos nostálgicos, que o entenderão como arqueologia nerd-musical – e aqui hemos de cumprimentar o produtor e multitarefas Gustaf Karlöf – e assume ares de conceito e descoletagem para hipsters synthpoppers em busca de sons para impressionar e demonstrar conhecimento em rodinhas no Whatsapp. No fim das contas, pelos mesmos motivos, todo mundo sai feliz.

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BOM PARA QUEM OUVE: Stevie Nicks, Madonna, Robyn

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.