Resenhas

niLL – Lógos

Sem deixar as rimas de lado, niLL se aproxima de uma sonoridade à la Daft Punk e projeta para o futuro com suas importantes questões

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Ano: 2019
Selo: SoundFoodGang
# Faixas: 12
Estilos: Rap, Vaporwave, Synthwave
Duração: 36'
Nota: 4
Produção: O Adotado, Crimenow, Yung Buda, Tan Beats, Nave Beats

Após Regina (2017), niLL está de volta. Antes de colocar o sucessor do ótimo disco na praça, o rapper/produtor de Jundiaí lançou a mixtape Good Smell (2018), que já deu alguns sinais dos caminhos que ele traçaria em Lógos (2019). As influências do Vaporwave e as bases em sintetizadores também aparecem mais fortes aqui do que em Regina, mas ele adiciona um ingrediente novo em sua carreira: o groove. 

Lógos é dançante, cheio de BPMs para as pistas, bebe do House, da Disco e, na maioria das vezes, se aproxima mais do Daft Punk do que de qualquer outro rapper. Mas, ainda que o disco seja claramente uma curva de niLL pelo mundo estrito do Rap, ele não abre mão de rimar. A faixa-título, abertura do projeto, é iniciada pelo martelo ritmado de um synth grave, que remete às trilhas de suspenses de John Carpenter e, na sequência, “Regras da Loja” convida BK’ para flutuar sob um belo Boom Bap Lo-Fi. 

A combinação entre o Synthwave que um androide ouvirá em 2049 e os aspectos mais tradicionais do Hip Hop é justamente o que torna Lógos um trabalho de destaque na cena do Rap nacional. Em “Jive”, uma das grandes faixas do disco, O Adotado (alcunha de beatmaker de niLL) explora sintetizadores que, logo nos primeiros segundos, remetem a Flower Boy, de Tyler The Creator. Na hora de se transformar em niLL para cuspir suas rimas, o tema é singelo, divertido e contagiante, bem aos moldes do Hip Hop Old School: um lance amoroso que tinha tudo para dar certo, só que a musa inspiradora mora muito longe, em Diadema. (“Tá calor, mil grau, sem problemas/ Se ela não morasse em Diadema”).

Como em Regina, males e incertezas do avanço tecnológico – e das consequências sociais deles – também são explorados e o que os torna interessantes é, tal qual na aliança musical entre novo e velho, a naturalidade com que o texto e o subtexto de niLL mesclam o macro e o micro. Em “Siri” ele pede que o aplicativo-proto-humano da Apple não recomende músicas novas, porque elas prejudicam seu processo criativo. Na mesma faixa, ele canta que “Essas crianças sabem demais/ Nessa cozinha usam facas demais”. As preocupações mais pessoais e banais – como “Se for comprar Pinho Sol é de perfume de lavanda”, ao aconselhar alguém fazendo uma compra online – são colocadas sob uma ótica universal, justamente por, de uma maneira ou de outra, servirem de crônica da vida no século 21. Tudo isso, de maneira leve, sem se esquecer de dançar.  

A atmosfera meio daft-funk-meio-Boogie-Naipe tem seu auge em “Embalagens”, produção inspiradíssima de Nave, com niLL cantando sobre – e dançando após – mais um desencontro amoroso. Ainda há espaço para o Trap brabo em “Descendente de Yasuke”, produzida por Yung Buda, e a cheia de Soul “Sessão 26”, que fecha o álbum e prova que niLL é daqueles beatmakers pesquisadores incansáveis, bem munido de samples mocados no desktop. 

Já tinha dado para perceber que niLL não é daqueles MCs que seguem uma cartilha do Rap e que os subgêneros não são suficientes para caracterizar suas produções. No provável passo mais “fora da casinha” de sua obra, a ousadia e o êxito se entendem, porque conteúdo e sonoridade se entendem. Lógos, no som e nas letras, é uma viagem sobre a astúcia, a presença de espírito e o carisma necessários para conseguir seguir em frente em meio às aflições e à velocidade da era digital. É como se Black Mirror encontrasse o Um Maluco No Pedaço. E a mistura é das boas. 

(Lógos em uma música: “Jive”)

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ARTISTA: niLL
MARCADORES: Rap, Synthwave, Vaporwave