Resenhas

Nilüfer Yanya – Miss Universe

Construído a partir das crises de ansiedade que nascem na transição para a fase adulta, álbum coloca a artista entre os destaques de sua geração

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Ano: 2019
Selo: ATO
# Faixas: 17
Estilos: Indie, Alternativo
Duração: 53'
Nota: 4

A trajetória da jovem londrina Nilüfer Yanya não é muito diferente de outros artistas de sua geração: experimentando ainda na adolescência, e chamando a atenção do público com as primeiras incursões através do Soundcloud, a artista aos poucos poliu o seu estilo musical até chegar a um resultado só seu. O seu debute, Miss Universe, na altura de seus vinte e pouquíssimos anos, tem o peso da experiência de alguém muito mais velho.

Miss Universe inspira-se obviamente numa estética noventista. Guitarras temperadas pelo fuzz e pelo reverb ocupam o primeiro plano das faixas. Clipes gravados em VHS exploram não só o desejo nostálgico por uma época passada, mas também por um estilo específico de narrativa, inspirada por fatos triviais do cotidiano.

Não será difícil estabelecer o território de atuação de Yanya, que, assim como seu contemporâneos King Krule, Mitski e Sasami, apropriam-se de melodias do Pop para construir algo muito menos ingênuo que a música consagrada pelo mainstream.

Miss Universe fala sobre saúde mental, ou mais especificamente, parece explorar um mundo construído dentro de uma cabeça aflita. Ansiedades e crises vêm e vão metaforizadas por sensações físicas. A sinestesia parece ser a palavra de ordem nas músicas, que confundem o calor, o frio ou a sensação de um mergulho com sua própria melancolia. Músicas como Monsters Under The Bed são sintomas não apenas da pouca idade da artista, que parece ainda ver no medo infantil um bom exemplo de sua própria inquietude, como também funcionam na hora de exemplificar um tipo de música introvertida, feita de dentro do quarto.

Apenas uma mente hiperativa produziria um álbum com dezessete faixas. Miss Universe é uma longa viagem de canções intercaladas por vinhetas inspiradas pela ficção científica pós 2001 – Odisseia no Espaço. Tais intersecções, apresentadas por uma voz robótica que fala sobre emoções humanas de uma maneira fria e apática, são interessantes, mas soam como um capricho: as canções, por si sós, já dizem muito bem o que Yanya tem para dizer por aqui.

A música de Nilüfer Yanya parece ser, simultaneamente, a causa e o alívio para suas crises de ansiedade. Sua riqueza se esconde justamente aí: mais do que apresentar uma estética bem definida, Miss Universe triunfa na generosidade de compartilhar experiências autênticas com o ouvinte.

(Miss Universe em uma música: In Your Head)

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BOM PARA QUEM OUVE: King Krule, Mitski, SASAMI
MARCADORES: Alternativo, Indie

Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.