Resenhas

Noel Gallagher’s High Flying Birds – Chasing Yesterday

Ex-Oasis volta mais maduro e diversificado em segundo álbum

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Ano: 2015
Selo: Sour Mash Records
# Faixas: 10
Estilos: Rock, Rock Alternativo, Britpop
Duração: 44:09
Nota: 4.0
Produção: Noel Gallagher

Não há nada de novo para saber sobre Noel Gallagher, exceto por este aguardadíssimo segundo álbum. Você já conhece o passado do sujeito, a banda que ele formou nos anos 1990, os quebra-paus constantes que protagonizava com seu irmão Liam, os clássicos, os álbuns mais ou menos, a separação e a carreira solo. Tudo isso está muito bem documentado em várias fontes de informação escritas, digitais, o diabo a quatro. O que você ainda não sabe é como o mundo vai reagir diante deste novo conjunto de canções assinadas pelo “Gallagher Mais Velho”, pelo homem que imprimiu uma marca sonora no inconsciente coletivo de qualquer um que tenha ouvido Rock nos anos 1990 e pensado que ele era, sim, algo para cantar junto, pular junto, beber junto e achar que o mundo era possível de ser conquistado…junto com seus amigos, seu amor, seja lá quem você escolhesse para te acompanhar nessa odisseia. Neste sentido, Noel é um cara à moda antiga, do tipo de ainda manda flores, em cujo peito ainda habitam recordações de seus grandes amores.

Dentro da missão de buscar alternativas sonoras para o que Oasis fazia, Noel se viu, subitamente, livre da forma aprisionante da canção Rock/Pop, a qual ele sempre burlava, mas não conseguiu evitar a sensação de mesmice em muitos momentos da carreira. O primeiro trabalho que lançou com seu novo grupo, High Flying Birds, já denunciava a sensação de liberdade experimentada por Noel, mas, com Chasing Yesterday, podemos dizer que Gallagher está usufruindo de sua condição de artista solo com maior autonomia, talvez finalmente sentindo-se à vontade para expor um novo – mas ainda familiar – modelo de canção imediatamente reconhecível e passível de ser atribuída a ele. Isso não significa que Noel lançou – ou quer lançar – um disco de Jazz ou com influências estranhas, erro frequente que a imprensa especializada insiste em cometer. É uma questão de imprimir uma marca; ele fez isso há duas décadas e agora. Está bom por enquanto.

Mesmo os mais irritantes escribas do mundo verão canções como The Mexican ou Ballad Of The Mighty I como criações pouco convencionais dentro da paleta de cores de Noel. A primeira tem um jeito de Rock meio psicodélico sessentista, sujo e empoeirado, enquanto a outra tem batida sintética e guitarras em contraste(incluindo a de Johnny Marr), com subsequente presença de cordas discretas e vocais característicos, que ganham força no refrão. O single Riverman, por sua vez, é 100% Oasis mas se uma forma levemente alterada e ainda tem o verso inicial There’s something in the way she moves… que já serviu como sentença de que Noel não consegue se libertar de suas influências Beatle, algo que, convenhamos, nunca ficou verdadeiramente à frente de qualquer outra, como Bowie, Stones ou Neil Young. Já em The Girl With X-Ray Eyes também tem DNA oasisista mas tem um arranjo de teclados retrô, que pontua a música por todo o caminho e refrão que pretende soar apoteótico, com relativo sucesso.

The Dying Of The Light é outro exemplo de como a fórmula de Gallagher tornou-se levemente diferente com o tempo. Tudo aqui parece familiar, mas arranjo, melodia e vocais estão numa curiosa relação de distância-proximidade com o que já foi feito. Mesmo assim, parece uma canção noturna e sutil, algo que é bem raro no cânon de Oasis. Falando em distância, metais estranhos surgem em The Right Stuff, justamente sobre semi-riffs gallagherianos típicos, mas há certo ar Pop californiano psicodélico e setentista na canção, outra sutileza inconcebível há até pouco tempo. While The Song Remains The Same já é lenta e climática, com mais psicodelia instrumental e andamento de bateria totalmente distinto dos padrões de Dantes no quartel de Abrantes.

Chasing Yesterday é elegante, senhor de si e está pronto para ser cantado por multidões, por gente solitária no quarto e ter as letras de suas canções decoradas e analisadas. Noel sabe disso e sabe das coisas, entende do riscado, joga nas onze e bate escanteio pra cabecear no gol. Com ele não tem muito erro e não adianta esperar que ele seja outro compositor, cantor, guitarrista. Talvez tenha sido, de fato, um dos últimos a serem imediatamente identificados nos primeiros acordes de suas canções. E isso, ao contrário do que apregoam por aí, é um grande e raro mérito.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.