Resenhas

Nvblado – Água Rosa

Segundo disco dos catarinenses caminha por correntes lentas e silenciosas de Post-Rock

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Ano: 2016
Selo: Bichano Records
# Faixas: 5
Estilos: Post-Rock, Noise
Duração: 53:00
Nota: 3.5
Produção: Nvblado

Poucas coisas são mais assustadoras do que o silêncio. A esperança do que pode eventualmente rompê-lo torna tal situação angustiante. Entretanto, a falta de controle do que virá logo em seguida pode acabar nos deixando aliviados com o seu resultado e com o seu barulho. É nessa gangorra, por vezes asfixiante, que o segundo disco do grupo Nvblado coloca o ouvinte – uma posição de incerteza recompensadora e dolorosa.

Esqueça um pouco o imediatismo encontrado em Afogado, trabalho de estreia dos catarinenses lançado em 2013. Água Rosa caminha por ecossistemas semelhantes, mas em diferente velocidade e proposta – explosões soam menos caóticas e mais expressivas e interessantes. É fácil se ver envolvido com o disco, seja por conta de seu convite intensivo à absorção sonora através de acordes abertos e espaçados que colocam pequenos pontos de silêncio em faixas como a abertura Pedra do Velho e Apolo, ou por simplesmente trazer temas densos às letras berradas ou largadas de Renan Pamplona.

De forma intrínseca, suas composições se encaixam com instrumentais melancólicos e tornam as músicas compreensíveis em sua temática. Apolo, por exemplo é extremamente categórica no uso de delay na voz para explicar seu começo letárgico: “Lento/ Como a dor de um tiro no peito/Como um congestionamento”. Sua progressão exige um desfecho que é determinante quando o vocal retorna: “Eu vou com a corrente, sem parar pra pensar demais/ Enquanto correm os dias, é fácil esquecer o detalhe que é a vida”. Entende-se que acordes são como fluxos de água que mudam de intensidade de acordo com seu percurso – semelhante à vida. Tal conceito se repete ao longo de outros momentos, como Deserto, mas sempre com a estética do silêncio tomando conta. Deixa o ouvinte ansioso e absorto, mas sempre entregue à deriva da água rosa.

Se podemos enxergar um novo universo de possibilidades para a banda em seu segundo disco, também vemos estágios naturais de evolução visíveis quando comparamos Afogado e Água Rosa lado a lado. Ambas nos asfixiam e nos fazem voltar a respirar, no entanto a escolha pelo movimento se mostra mais natural na nova obra dos catarinenses. Como em Asma, belíssima e suspensa canção que encerra de forma turfa as águas que por ventura já foram claras. É o tipo Post-Rock visto por caminhos estrangeiros com toques tropicais e melancólicos, condizentes com a paleta de cores de sua capa.

Com quase uma hora de duração e faixas extremamente longas, o disco não procura ser imediato ou gratuito e espera, na verdade, o curso natural da vida. Logo, a ansiedade que cada música traz mostra-se um elemento descartável para o ouvinte – é melhor boiar e sentir a condução correnteza do que tentar entendê-la. A água, elemento comum em ambas as obras, não busca mais afogar. Água Rosa torna-se o elemento perfeito para contemplarmos o silêncio, o medo e o êxtase de forma madura e bonita.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.