Resenhas

O Terno – < atrás / além >

Quarto álbum da banda retoma o que Tim Bernardes fez em seu disco solo para trabalhar algumas de suas melhores características

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Ano: 2019
Selo: Risco
# Faixas: 12
Estilos: Indie
Duração: 49'
Nota: 5

Parece que O Terno sempre soube fazer música – pode ver qualquer um de seus discos, os pontos negativos são sempre poucos, ou, dependendo com quem você falar, praticamente inexistentes. O mesmo vale para os shows, que sempre sabem empolgar com uma performance excelente, um bom humor espontâneo entre as faixas e até algumas surpresas, como metais em uma apresentação ou outra. Desde que a banda despontou, parece rolar uma expertise ali, um naturalidade com que as boas ideias fluem, em níveis bastante raros em qualquer grupo, ainda mais para quem começou como uma “banda de colégio”.

Pensando então nesse raciocínio, que “O Terno sempre soube fazer música”, sua carreira ao longo dos álbuns parece ter se moldado para além da maturidade musical, sendo também a partir do desenvolvimento da comunicação com o ouvinte em um nível afetivo. Se o primeiro disco, 66 (2012), contava boas histórias, o seguinte (O Terno, 2014) começou a aperfeiçoar narrativas com as quais as pessoas se identificariam em primeira pessoa. O sucesso de Ai, Ai, Como Eu Me Iludo, até hoje, é um argumento a favor de uma desenvoltura para colocar o fã em uma postura vulnerável, cantando sobre coisas que sente, mas nem sempre gostaria de admitir, em um processo que se repetiu em Eu Confesso e Eu Vou Ter Saudades, ambas do mesmo álbum. Pensando assim, surpreende ainda menos que a promoção de Melhor do que Parece (2016) tenha começado com Culpa.

< atrás / além > chegou agora depois de Recomeçar (2017), primeiro álbum solo do vocalista, guitarrista e compositor Tim Bernardes, que não economizou na melancolia ao narrar experiências de coração partido, um assunto universal e sempre desconfortável, ainda mais quando tratado com sinceridade. Diferente do que fazia acompanhado dos dois companheiros de banda, ele explorou outros timbres muito diferentes do formato power trio de Rock no qual víamos seu trabalho até então. O novo trabalho parece seguir adiante o que esse disco começou, mas trazendo consigo os outros integrantes no palco e no estúdio, e tudo o que eles carregam.

O primeiro impacto é sim a sonoridade tão distante daquele Indie Rock Psicodélico de outrora. A segunda impressão, logo em seguida, vem para confirmar como as letras falam ainda mais alto que as dos lançamentos anteriores, com um alto grau de identificação de quem está na fase dos vinte, vinte e tantos anos, mas também ainda mais universal do que antes. E é quando faz ainda mais sentido que elas venham acompanhadas de uma levada menos urgente e mais contemplativa, como a oferecida pelos timbres escolhidos, como piano e violão.

O Terno sabia o que precisava comunicar para além das palavras no disco, e todas as escolhas parecem vir daí. Vai ter quem colocará a banda, pela enésima vez, no topo dos destaques desta geração que faz música autoral no Brasil, e < atrás / além > é argumento suficiente para isso. Vai ter também quem traga o disco para perto do peito e tatue metaforicamente (ou não) versos como “eu quero ficar velho, quero tudo o que eu não fiz”. O disco é pra esses.

(< atrás / além > em uma música: Pegando Leve)

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BOM PARA QUEM OUVE: Fleet Foxes, Radiohead, Sufjan Stevens
ARTISTA: O Terno
MARCADORES: Indie

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.