Resenhas

Olivia Rodrigo – Sour

Aguardada estreia da jovem cantora e compositora percorre a montanha-russa emocional dos amores adolescentes, acompanhada de sonoridade autêntica

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Ano: 2021
Selo: Geffen Records
# Faixas: 11
Estilos: Pop Punk, Pop, Folk
Duração: 34'
Produção: Dan Nigro

Tem sido comum alguns críticos usarem o termo “adolescente” para definir uma música simples e repleta de dramas emocionais. Ainda que insuficiente, esta denominação, de alguma forma, ressoa um estereótipo desta época de nossas vidas – tão cheia de dúvidas e angústias, em que cada episódio é um potencial gatilho para que tenhamos a sensação de que o mundo está desmoronando. Entretanto, quando aplicado como adjetivo para a música, não é sempre que se tem as melhores das intenções. Muitas vezes, um disco que soa como adolescente é visto como supérfluo, como se fosse feito para agradar, sem grandes esforços, um público. Em linhas gerais, é um disco considerado “fácil demais”. É justamente nesta facilidade, aliada ao sentimento de apocalipse emocional da juventude, que a jovem cantora e compositora Olivia Rodrigo se apoia durante a composição de suas canções e, se há uma coisa que suas faixas demonstram, é que as coisas não são fáceis demais. Mesmo.

Olivia Rodrigo é uma garota que teve sua carreira impulsionada pela aparição em algumas séries da Disney. A primeira, menos conhecida, foi Bizaardvark. Já a segunda trouxe um reconhecimento muito maior – uma releitura do fenômeno High School Musical transposta para os dias de hoje e colocada sob a forma da série High School Musical: A Série: O Musical. Entretanto, este impulso da Disney foi muito menor quando comparado com a projeção que o primeiro single do disco de estreia tomou. “driver ‘s license” foi arrebatador em todos os sentidos da palavra. Foi a primeira vez que tomamos contato com a escrita da cantora, uma que é marcada pela sinceridade e por uma explosão de sentimentos altamente relacionáveis. Ficou evidente que Olivia não seguiria o caminho de muitas estrelas da Disney, que embarcaram em um sucesso passageiro (e problemático). Seus singles seguintes demonstravam a mesma proficiência com a composição e, logo o espaço das canções isoladas era muito escasso para que ela pudesse se expressar em sua plenitude. Assim, nasceu Sour.

O disco de estreia de Olivia Rodrigo é o que os críticos poderiam chamar de “adolescentesco”, porém sem o teor pejorativo. Com 18 anos, a artista entrega canções que refletem o impacto que os términos de relacionamento trazem e o título do disco faz questão de evidenciar que as coisas não são tão românticas quanto uma série da Disney. Remoer todas estas emoções é azedo e, contrária àquela necessidade da adolescência de querer parecer adulto e que nada te atinge, Olivia não poupa esforços para imprimir a sensação de que o fim de um relacionamento pode ser comparado, de fato, ao fim do mundo. Olivia não quer manter a pose – quer o alívio, a catarse de poder expressar isso por meio de de sua música. Em entrevista para Billboard, ela disse que o conceito inicial era tentar dosar as músicas de “coração partido” com canções de amor. Entretanto, isso sacrificaria parte de sua verdade e, portanto, Sour continuou como um disco sobre experiências incríveis da sua vida, progressivamente, se tornando angustiantes.

Para dar voz a estes sentimentos, Olivia se apega uma sonoridade inescapavelmente Pop. Porém, ao invés de ceder a caprichos e exigências estéticas do Pop mundial, a artista traz para a mesa suas próprias referências. Há uma paixão pelas cantoras dos anos 1990/2000, de Alanis Morissette a Kacey Musgraves e Taylor Swift – a última, declaradamente uma de suas maiores inspirações e que certamente ecoa na forma com que Olivia compõe. Além destes nomes, Olivia apresenta sua face mais Rock, que parece influenciada por bandas como No Doubt e White Stripes, e bebe de referências ao Pop Punk dos anos 2000/2010. Somando tudo isso, temos em Sour uma sonoridade muito autêntica, cujo ecletismo já se sobressaía nos diferentes singles apresentados até aqui. O Pop acaba permeando toda esta construção, mas as minúcias de cada elemento escolhido, junto da produção afiada de Dan Nigro (Carly Rae Jepsen, Kylie Minogue, Caroline Polachek), são o que dão o caráter tão pessoal de Olivia Rodrigo a cada uma dessas canções.

“brutal” nos introduz de forma explosiva às experiências de Olivia Rodrigo e é representada muito bem pela frase final do refrão: “Deus, é muito brutal aqui fora”. O hit estrondoso “driver ‘s license” tem o mesmo efeito de quando foi lançado – seja pela sinceridade de cada palavra escolhida, ou pela história do triângulo amoroso que, supostamente, inspirou a música. “good 4 u” é o momento em que o Pop Punk brilha, mostrando uma Olivia repleta de ironia e “desejando” felicidades ao antigo relacionamento, mesmo que secretamente ela queira trucidá-lo. “happier” encarna uma proposta já conhecida da cantora: as baladas repletas de mágoas, que unem um sentimento de purgação ao de um luto que nunca parece passar. A escola Taylor Swift de composição tem muitos representantes no disco, mas “favorite crime” parece ser a mais efetiva ao mesclar as referências da música Folk ao sentimentalismo pulsante de Olivia.

Sour é inegavelmente um disco adolescente e este é o seu maior trunfo. Ao vestir totalmente o que é considerado o estereótipo desta fase da vida, Olivia Rodrigo entrega um trabalho que reflete sua característica mais autêntica e sedutora: a sinceridade. Por não querer disfarçar o impacto emocional de um término de relacionamento, ela revela aquilo que muitas vezes nos faz sentir vergonha – nossas vulnerabilidades. De quebra, o discurso e, consequentemente, a persona de uma artista estreante chegam com uma musicalidade envolvente e bem produzida. Sour é um disco que, por trás de uma experiência adolescente, revela um talento convicto de sua personalidade e que compartilha uma verdade intensa e, com o perdão do paradoxo, honesta.

(Sour em uma faixa: “brutal”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.