Resenhas

Oneohtrix Point Never – Magic Oneohtrix Point Never

Nono disco de Daniel Lopatin retoma as curiosas colagens sonoras e entra em sintonia com a imprevisibilidade da nova década

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Ano: 2020
Selo: Warp Records
# Faixas: 17
Estilos: Experimental, Sample based
Duração: 47'
Produção: Daniel Lopatin

Na era do streaming, o rádio inevitavelmente perde um tanto de seu poder. Sequências musicais imprevisíveis podem ser pouco práticas aos ouvidos de novas gerações e, em tempos de rotinas aceleradas e conteúdos tão ágeis, o aparelho não dispõe do controle que muitos novos fãs de música esperam. Entretanto, há quem, a partir da ideia do rádio, enxergue possibilidades e diálogos interessantes com a atual conjuntura – indo muito além da impressão de um aparato “ultrapassado”. Uma dessas pessoas é Daniel Lopatin, um artista que aos poucos escapa do cenário underground da música eletrônica e emerge como um produtor único, dotado de um olhar extremamente criterioso e minucioso.

Em Oneohtrix Point Never, um de seus principais projetos, seu talento ganha uma dimensão ainda maior. Sua sonoridade é um corpo indecifrável e metamorfo, que ganha uma expressão totalmente diferente a cada registro. A ele é atribuído o título de “criador acidental” do Vaporwave, especialmente por conta de seus primeiros experimentos com colagens sonoras. Parte do talento de Lopatin vem justamente dessas colagens e da forma como seu garimpo constrói uma espécie de mosaico, com pedaços tão distintos encaixados de maneira harmônica e descaracterizada de seu contexto original. Ele vai além da manipulação e edição de samples e cria uma linguagem original para expressar o mundo que o cerca. É justamente aí que seu fascínio pelo rádio ganha sentido e toma forma em seu nono disco de estúdio.

O título do álbum, Magic Oneohtrix Point Never, antecipa esta paixão de Daniel Lopatin. Ele vem de uma brincadeira com o nome de um programa chamado Magic 106.7, transmitido pela estação WMJX Boston. Em entrevista, Daniel comentou que título do registro vem da ideia de evocar “uma sensação tranquila a partir das transições caóticas que a rádio popular traz”. Este novo disco traz a sensação de imprevisibilidade e pouco controle do rádio e ainda abarca o aspecto atual e moderno que cerca o produtor.

Sonoplastias de rádio e interferências de sinal acompanham o registro durante as 17 faixas, mas o verdadeiro verniz final fica por conta de nossa falta de palavras para tentar dar nome àquilo que ouvimos. Os gêneros explorados se alternam tão rápido que fica difícil escolher um único gênero para definir o registro. O mais próximo que o próprio produtor conseguiu foi o termo “Pop barroco maximalista” e “Atmosfera Glitter”.

É um trabalho que se aproxima mais do Pop, gênero que acompanha sua trajetória como produtor de artistas como The Weeknd e Caroline Polachek. Faixas como “No Nightmares” e “Long Road Home” certamente podem ser ótimas escolhas para quem procura conhecer o trabalho de Oneohtrix Point Never, mas não é tão íntimo do aspecto experimental. Entretanto, o produtor não abre mão de ambientações mirabolantes, como em “Imago” e “Wave Idea”. Os interlúdios também são peças fundamentais da apreciação do disco como um todo, pintando o cenário com cores imprevisíveis a partir de distorções e manipulação de samples de diferentes décadas (as faixas denominadas “Cross Talk”).

Talvez sejam justamente a imprecisão dos gêneros e o grande vácuo subjetivo entre as colagens de Magic Oneohtrix Point Never que despertem uma intensa curiosidade no ouvinte. Escutar este disco é estar à deriva do imaginário de Daniel Lopatin – como uma estação de rádio em que não sabemos o que virá a seguir. Mas, ainda assim, há uma confiança no talento daquele que está por trás da seleção. E o resultado é a conclusão de que os sons e as ideias de Oneohtrix nunca fizeram tanto sentido quanto agora.

(Magic Oneohtrix Point Never em uma faixa: “No Nightmares”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.