Resenhas

Paolo Nutini – Last Night in the Bittersweet

Em quarto álbum, músico britânico troca a inquietação criativa da juventude por abordagem mais polida e, aproveitando a ambientação do rádio, soa tão rock quanto pop

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Ano: 2022
Selo: Atlantic Records/Warner Music
# Faixas: 16
Estilos: Pop, Rock, Indie
Duração: 72'
Produção: Dani Castelar, Gavin Fitzjohn e Paolo Nutini

Talvez ele seja o último romântico do lado de lá do oceano Atlântico: Paolo Nutini, cantor e compositor escocês cuja popularidade veio justamente de suas canções de amor, nunca esteve tão apaixonado quanto em Last Night in the Bittersweet. Não necessariamente por alguém, mas pela música em si – “I love you like a song”, ele canta em “Everywhere”, e cria ali, sem querer, um ícone para esta sua nova fase.

Em seu quarto álbum, ele troca a inquietação criativa da juventude por uma obra mais polida, mais bem aparada em suas arestas, com músicas que emendam umas nas outras com fluidez e certa variedade de ritmos e estilos. É uma experiência de audição longa (16 faixas ao longo de 1 hora e 12 minutos) que vai na contramão de playlists e tendências de mercado de hoje em dia, semelhante a uma palavra que se repete poucas (porém suficientes) vezes ao longo do disco: radio.

Conta-se que Paolo, ao aproximar-se dos 30 anos, quis ter um novo contato com sua musicalidade e foi investigar seu repertório adquirido ao longo da vida também como ouvinte. O resultado é uma obra na qual ele é o DJ e o músico ao mesmo tempo, em um passeio por diferentes humores e musicalidades que, talvez melhor que qualquer um de seus lançamentos anteriores, dão conta de retratar melhor quem o artista é.

Ele é o que rasga sua voz de um jeito muito particular em “Through the Echoes”, por cima de uma ambientação nostálgica e um coro suave que não combinaria com a música se fosse feita por outra pessoa. Paolo é também aquele que flerta com um Rock já antigo e datado, mas que fica charmoso em suas mãos –  como “Acid Eyes”. Da grandiosidade de “Shine a Light” ao climinha gostoso de “Radio”, Last Night in the Bittersweet cerca o músico com suas melhores qualidades e também suas possibilidades estéticas – é o cara que canta “Candy” e também o de “Iron Sky”, só que bem mais maduro.

Em meio ao repertório, é preciso aguentar uma ou outra lagarta para chegar às borboletas. “Petrified in Love” só funciona dentro da narrativa radiofônica e saudosa que ele propõe, mas, por si só, é apenas uma música boba. Se “Children of the Star” e “Desperation” são também menos carismáticas, embora não tenham nada de muito errado, a audição é compensada com momentos que merecem marcar sua carreira para todo o sempre, como a belíssima “Take Me Take Mine”, a indiezona “Afterneath” e a já mencionada “Everywhere” – que chega perto de ser algo que Bon Jovi faria em seus melhores dias, mas com o charme cantador que o artista exala em sua interpretação.

Last Night in the Bittersweet também ajuda o ouvinte que chegou até Paolo Nutini pelos hits com cara de trilha de novela a entender o conceito de “música autoral” como a criação de alguém que faz aquilo que bem entende dentro de sua arte. Ao aproveitar a ambientação do rádio, Paolo é, em uma só sequência, tão rock quanto pop, além de tantas outras palavras de significado gasto, mas que encontram um frescor criativo irresistível ao longo do disco.

(Last Night in the Bittersweet em uma faixa: “Everywhere”)

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ARTISTA: Paolo Nutini

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.