Resenhas

Pavement – Crooked Rain, Crooked Rain

Despretensioso, honesto e poderoso: o provável maior clássico da banda já era arrebatador em 1994 e continua sendo até hoje

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Ano: 1994
Selo: Matador
# Faixas: 12
Estilos: Indie Rock, Rock Alternativo
Duração: 49’
Produção: Pavement

No clipe de “Golden Soundz”, os integrantes do quinteto Pavement são vistos na ensolarada Califórnia brincando por cenários tediosamente artificiais, vencendo a monotonia com recursos simples, como fantasias de Papai Noel, e a ajuda de pequenas surpresas irreverentes ao longo da narrativa. Ao final, eles sentam na grama, comem biscoitos e bebem leite.

Não consigo imaginar que era essa a intenção, mas o vídeo traduz Crooked Rain, Crooked Rain muito bem. O segundo álbum da banda, lançado em 1994, é dotado de um alto grau de jovialidade, do tipo que não sente que precisa pedir nem licença, nem desculpas ao fazer o que bem entende para saciar suas vontades e lidar com o ambiente que lhe cerca. Por isso, escutá-lo hoje, tantas décadas depois, é perceber que a obra não precisou amadurecer (nem “envelhecer bem”, como dizem).

Outros grupos da mesma época também estavam realizando em primeira pessoa seus registros da juventude californiana, alguns com maior êxito em popularidade (e vendas) do que Stephen Malkmus e companhia. Sem o grooveado eufórico de Red Hot Chli Peppers ou o Punk no geral angustiado que Green Day tanto explorou, o Pavement parece ter sido quem melhor imprimiu a honestidade do dia a dia em suas músicas.

Além das temáticas corriqueiras ao universo do típico adolescente tardio, como skate e meninas, Crooked Rain, Crooked Rain apresenta uma experiência bastante humanizada nas transições de humores entre as faixas. São picos de energia muito bem aproveitados no clima Indie Rock, com “Cut Your Hair” e na própria “Golden Soundz”, alternados com outros lados do espectro emocional, como na tensa “Stop Breathing”.

Como de costume nas melhores obras musicais, a banda – que assina a produção do disco – se preocupou em dar a cada faixa aquilo que ela mais precisa, de pequenos e surpreendentes momentos gritados a uma guitarra bastante emotiva (respectivamente nas já mencionadas “Cut Your Hair” e “Stop Breathing”). Do clima arrastado de “Heaven Is a Truck” às catarses de “Unfair” e da longa “Filmore Jive”, passando pela instrumental “5-4=Unity”, os 42 minutos de álbum oferecem mais atrativos do que o suficiente para quebrar o tédio tão associado à juventude no primeiro mundo, aquele visto no videoclipe.

Ou seja, Crooked Rain, Crooked Rain conseguia ser uma obra completa em 1994 e continua sendo hoje, quando ouvi-la comprova também o seu legado ao nos trazer à mente tantos outros sons influenciados por essas características, seja no Indie ou no Rock Alternativo. Se há uma sagacidade em saber redirecionar seu som neste disco para longe do Lo-fi do anterior, é difícil imaginar o Pavement produzindo o álbum sem o alto grau de despretensão que sentimos nas músicas. Afinal, estamos ouvindo cinco caras que se vestem de Papai Noel para causar no meio da rua.

(Crooked Rain, Crooked Rain em uma faixa: “Cut Your Hair”)

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ARTISTA: Pavement

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.