Resenhas

Pavement – Wowee Zowee

Criativo e livre, terceiro disco adiciona experimentalismo às características mais fundamentais da banda

352 total views, no views today

Ano: 1995
Selo: Matador
# Faixas: 18
Estilos: Indie Rock, Punk, Garage Rock
Duração: 55'
Produção: Pavement

Quando paramos para analisar a obra de uma banda tão importante quanto Pavement, por vezes não nos damos conta de que nosso juízo está localizado anos à frente dos lançamentos originais desses registros. Assim, por vezes, é muito mais fácil analisar impactos e traçar paralelos entre os discos fora de seus contextos originais, proporcionando visões um pouco menos influenciadas pelas urgências de definições da época. Wowee Zowee é um dos discos que, felizmente, se beneficia desse distanciamento temporal crítico, principalmente quando colocado em comparações com as críticas de revistas da época.

Terceiro disco do grupo, seu título teve como inspiração uma frase comumente proferida pelo primeiro baterista do grupo que, em situações de felicidade imensa, gritava “Wowee Zowee”! Dentre as possibilidades, o nome foi uma das escolhas mais sóbrias da banda pois, segundo o livro da série 33⅓ do disco, a frase “Dick-Sucking Fool at Pussy-Licking School ” chegou a ser a cogitada por Bob Nastanovich. Com este clima lisérgico e descompromissado, já é possível ter uma noção do teor das críticas escritas na época. Revistas como Rolling Stone e Entertainment Weekly se referiam ao disco como “um grande ensaio” e, por vezes, “falta de inventividade” e “mais do mesmo” eram mencionados. Por isto, o disco ficou por um tempo nomeado como um dos piores do grupo, principalmente por estar localizado imediatamente após as consideradas duas obras primas do grupo (Slanted & Enchanted, de 1992, e Crooked Rain, Crooked Rain, de 1994).

De qualquer forma, o tempo fez questão de colocar Wowee Zowee sob um julgamento justo. De fato, a sonoridade do disco permeia os lugares comuns intensos do Indie e Garage Rock, e isto faz sentido ao saber que composições como “Grounded,” “Flux = Rad,” “Pueblo,” e “Kennel District” foram compostas praticamente na mesma época das músicas do disco anterior – alguns dos rascunhos estão na edição deluxe, Crooked Rain, Crooked Rain: LA’s Desert Origins, de 2004. Entretanto, quando acusado de fazer mais do mesmo, Stephen Malkmus escreveu uma espécie de manifesto, no qual dizia: “[…] Eu não gosto de progresso. Progresso é previsível e previsões envolvem ciência. Eu não quero ter nada a ver com a ciência”. Assim, Pavement deixava claro que a proposta do disco era justamente vestir a camiseta do ar descompromissado e Indie que estavam em efervescência no começo dos 1990. Toda a despretensão de se falar em termos de experimentalismo e do pseudocultismo da teoria musical percorrem as 18 faixas do registro.

Hoje, escutar Wowee Zowee sabendo da importância de Pavement, ganha outro sentido. O disco traz forte um ideal quase Punk de “não se importar”, reforçado em linhas de guitarras distorcidas e vocais agressivos e escancarados. Ao mesmo tempo, também consegue colocar um pouco de psicodelia e aspecto lisérgicos, evidenciados nas constantes quebras de compassos e caos nas melodias. Apesar de, na época, Malkmus deixar claro seu descontentamento com o progresso, o que se observa neste terceiro disco do grupo é um encaminhamento de algumas doses de experimentalismo as quais, de certa forma, podemos chamar de inventividade. A crítica da época ainda colocava Wowee Zowee sob o mesmo teto da falta de criatividade, sem saber da enorme injustiça que cometia.

Apesar de tudo, ficar nas sombras das “obras primas” de Pavement, não impediu Wowee Zowee de permanecer como marco importante da construção sonora da banda. O disco coloca o estereótipo do Indie em segundo plano, prezando pela experimentação. E tudo isso sem que o grupo ficasse preocupado com cada detalhe produzido. Ou seja, é uma prova do quanto Pavement consegue produzir discos complexos sem ter que pensar muito. Um atestado de “cool”.

(Wowee Zowee em uma faixa: “Grounded”)

353 total views, 1 views today

ARTISTA: Pavement

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.