Resenhas

Pedro Pastoriz – Pingue Pongue com o Abismo

Com a poesia em primeiro plano, terceiro disco do músico gaúcho atravessa as transformações causadas pela perda

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Ano: 2020
Selo: Risco
# Faixas: 14
Estilos: Alternativo, Folk
Duração: 34'
Produção: Gui Jesus Toledo

“O show tem que continuar”. A tão repercutida máxima teatral e circense (ou verso na voz de Freddie Mercury e do Fundo de Quintal) fala do princípio comum nos sonhos de artista, de que a vazão da emoção criadora jamais poderá ser tapada, aconteça o que acontecer, dá-se um jeito do espetáculo não parar. O show, independente de saúde, notícias no jornal ou mesmo de uma perda na família, vai continuar. Mas como?

Pedro Pastoriz não responde a essa pergunta diretamente em Pingue Pongue com o Abismo, mas parece ter produzido este seu terceiro disco com algumas hipóteses de resposta em mente. Ele, que sempre uniu o bom humor a uma musicalidade esperta – tanto em seu projeto solo quanto com a banda Mustache e os Apaches –, estava começando a produzir o álbum quando enfrentou o falecimento repentino de sua mãe. O acontecimento, tão formativo na história de qualquer ser humano, fez com que ele repensasse, entre todas as outras coisas, o que seu próximo trabalho deveria trazer.

Ouvir Pingue Pongue sem essa informação pode, talvez, resultar em uma experiência que foque em algumas repetições presentes ao longo da obra, principalmente na insistência da palavra “replay”, ou nos elementos eletrônicos que fazem com que o álbum tenha uma identidade muito própria se comparado aos dois anteriores (aliás, também diferentes entre si). Mas a leitura é mesmo outra, até mesmo a da inclusão dessas novidades estéticas, quando entendemos que ele foi todo feito com a natural e naturalmente bizarra aceitação que caracteriza o luto.

O disco começa com o refrão de “Dolores”: “Restam cartões postais de lugares distantes demais que ela nunca visitou”. Não é à toa não sabermos quem “ela” é, ou o que aconteceu para que só restassem os cartões. Essa sensação confusa, de ligar a televisão e o programa já ter começado, é um breve paralelo com uma notícia inesperada. Tanto é que uma metafórica linha do tempo que guia o álbum do início ao fim é também desnorteada, com músicas que parecem terminar bem antes do fim da faixa, e que tomam outros caminhos. Ou mesmo vinhetas que se confundem com as composições.

São essas vinhetas que ajudam a reforçar o conceito do “replay” que tanto aparece ao longo da obra, principalmente em sua segunda metade. Usando a comicidade que apresenta também nos palcos e nas redes sociais, Pedro insiste na repetição dessa palavra como quem força a mesma piada diversas vezes. Mais interessante do que tentar interpretar o que o “replay” quer dizer, talvez o maior significado esteja justamente nessa atitude em si: a tentativa ou de um alívio (no caso, o riso), ou de assumir o controle da situação – ambas comuns ao luto. Intencionalmente ou não, o que fica é uma melancolia quase constrangedora que ressalta, em meio a tantas piadinhas e elementos eletrônicos, os aspectos mais humanos do álbum.

A voz de Pedro está consideravelmente mais alta e clara do que em seus trabalhos anteriores, o que ajuda a comunicar algo mais orgânico no que estamos ouvindo, assim como a prestar mais atenção em suas palavras. A poesia está em um primeiro plano absoluto, tanto que os dois convidados da obra – a atriz Lydia del Picchia e o poeta Fausto Fawcett – não vêm para cantar, mas para proclamar textos. É na união tanto da comicidade quanto da força das palavras que surgem os dois melhores momentos do disco, que acabam por definir nossa audição.

“Alzira” e “Janela”, ambas ali na metade do repertório, escancaram saudades e desesperança. As duas baladas de base no violão trazem vocal quase sussurrado em alguns momentos e ambas recebem elementos tão leves quanto volumosos que fazem com que ela não só flutue, mas ascenda – como o gás quente que empurra a lona do balão para cima. E o circo que Pedro Pastoriz sempre montou vê seu espetáculo ser apresentado com um grau de vulnerabilidade impressionante. O show continua. Como? Assumindo a lente da mortalidade, aquela que faz com que os dias ganhem novo sentido. Nas palavras que ele canta em “Alzira”: “Todas as estrelas vão se apagar/ Todos belos dias vão anoitecer/ Mas já não tenho medo/ Vou atravessar, vou continuar/ Até o dia amanhecer com o que sobrar/ De mim”.

(Pingue Pongue com o Abismo em uma faixa: “Alzira”)

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.