Resenhas

Pedro Pastoriz – Projeções

Cantor e compositor gaúcho faz belo disco sobre viver em São Paulo

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Ano: 2016
Selo: Risco
# Faixas: 10
Estilos: Lo-Fi, Rock Alternativo, Folk RoCk
Duração: 37:25
Nota: 4.0
Produção: Gui Jesus e Pedro Pastoriz

O gaúcho Pedro Pastoriz, integrante da boa banda Mustache E Os Apaches, chega ao segundo disco com um belo argumento/inspiração: a paixão pela cidade. Desde que o aglomerado urbano assumiu a forma que tem hoje, lá pro início/meio do século 19, ele vem fascinando os mais atentos. É gente que pode ver beleza em multidões, ruas sujas, lugares abandonados, mas que também é capaz de se enamorar pela grande invenção que é a cidade. Essa comunidade meio forçada de pessoas, unidas pelo transporte público, pelas calçadas, que vê camelôs, andarilhos, que vai pra casa apenas para dormir, lugar onde passa a menor parte de seu dia. Projeções é um disco eminentemente urbano, feito e dedicado à urbe, em toda a sua dualidade encantadora. Além disso, é um álbum moderno, caótico na medida certa, contraditório e urgente como é a própria vida de quem perambula pelas ruas de qualquer centro urbano do planeta. No caso de Pedro, o objeto de contemplação é São Paulo.

Interessante notar que ele, nascido em Porto Alegre, é dono de um bom registro vocal, que lembra um pouco o melhor da tradição da capital gaúcha neste quesito, lembrando um Nei Lisboa mais jovem, misturado com algumas inflexões próprias, que se parecem muito com esses músicos que tocam na rua. Não por acaso, Pedro já passou bom tempo tocando nos espaços públicos quando chegou à capital paulista, adquirindo uma malandragem típica dos que enfrentam perrengues capazes de colocar em xeque qualquer tipo de conforto material. Historicamente falando, o conforto é inimigo da boa arte e, mesmo que a gente esteja falando de um disco de música popular em pleno 2016, este postulado segue com efeito e relevância. Voltando à obra do sujeito: ele surge como um misto de menestrel urbano e profeta com cartaz “o fim do mundo está próximo” pendurado no pescoço, enquanto reflete sobre essa movimentação caótica que se dá na cidade.

A banda que acompanha Pedro traz um pessoal bastante ativo no cenário independente brasileiro: André Vac (Charlie e os Marretas, Gran Bazaar), Arthur Decloedt (Música de Selvagem) e Tim Bernardes (O Terno) e esses caras fornecem um instrumental com um pé em 2016 e outro que oscila nos anos 1980, de forma bem sutil, ora assumindo preponderância nos arranjos, ora servindo de contraponto para as narrativas que Pastoriz empreende. Um bom exemplo desta alquimia está logo na faixa de abertura, talvez a melhor do álbum: Restaurante Lótus. Aqui ele fala de um ponto de encontro na cidade, no qual, além de matar a fome, mata as vontades de ver e conhecer pessoas, além de encontrar os amigos e atribuir, dessa forma, um valor sentimental que vai além da relação de consumo estabelecida pela lógica neoliberal de hoje. Aliás, a visão romântica que dá sustento ao disco é contrária ao que se pensa sobre as metrópoles hoje em dia. Para Pedro, por exemplo, por mais cinzenta e superpovoada, sua musa terá encantos de sobra e essa é sua visão personalíssima.

Outra ótima faixa é Revelações, com belo trabalho de guitarra, que surge como algo que poderia ser feito por Belchior, caso o compositor e cantor cearense estivesse na casa dos 20 e tantos anos. Tem o deslumbre pela mudança, o abraço ao acaso, tudo como forma de construção de uma nova – e melhor – realidade, que, por mais afetuosa, não é acrítica. Em 0800 Previsões, num andamento mais calmo e climático a princípio, Pedro e banda deságuam em mais uma pregação de rua, falando sobre caminhos e consequências. Assovio, que fecha o disco, surge mais sussurrada, com alguma aura religiosa conferida pelo instrumental, com destaque para uma bela intervenção de teclados, que dá a ela um verniz mais entristecido e pungente.

Pedro Pastoriz surge como um desses trovadores urbanos que gostamos tanto. Sem comparar – já comparando – gente como Lou Reed, Bob Dylan e o já citado Belchior, têm belos trabalhos – discos, canções – sobre a modernidade, a cidade grande e os desafios de domar realidades e mudanças. Estamos na torcida por mais.

(Projeções em uma música: Restaurante Lótus)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.