Resenhas

Perfume Genius – Set My Heart On Fire

Com influências que vão de Folk a Ambiente Music, quinto disco de Mike Hadreas, de uma só vez, explora feridas e celebra vivências

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Ano: 2020
Selo: Matador Records
# Faixas: 12
Estilos: Chamber Pop, Eletrônica, Dark Folk
Duração: 50'
Produção: Blake Mills

Em muitos estudos da psicologia, o corpo humano é considerado um instrumento pelo qual construímos nossa subjetividade. Como se ele fosse uma casca que traduz o significado de nossas experiências. Entretanto, existe um autor chamado Michel Henry que revê esse conceito, colocando o corpo, na verdade, como a própria representação de nossas vivências e experiências, não apenas um mero mecanismo.

É a partir dessa noção que Mike Hadreas, conhecido sob a alcunha de Perfume Genius, parece se apoiar ao construir a sonoridade que impregna seus trabalhos. Suas canções são marcas vivas daquilo que viveu, e nem sempre isso se mostra da forma mais facilmente digerível. Seja cantando sobre uma relação amorosa durante o colégio com um professor mais velho em “Mr. Peterson” (Learning, 2010), ou contando sobre um episódio de abuso sexual que sua mãe sofrera, em “Dark Parts” (Put Your Back N 2 It, 2012).

Entretanto, em suas músicas, Mike Hadreas constrói uma tonalidade menos melancólica e mais catártica. Uma narrativa que não encara estes episódios como fardos a serem carregados, mas celebrados. Seja bancando a sua sexualidade ou mostrando a força de superação que sua mãe teve após o episódio mencionado. Assim, Perfume Genius é um projeto construído a partir de ressignificações. Não no sentido sensacionalista de superar um trauma e ir contar a Oprah, mas, sim, de explorar em seu corpo as feridas que o moldaram e que o tornaram o homem que é hoje. Este é o ponto central de sua obra e isso fica ainda mais evidente em seu quinto disco, Set My Heart On Fire Immediately.

O ambiente construído durante as 13 faixas do registro é um campo edificado em antagonismos. Ele utiliza estruturas do Rock dos anos 1950 e do Folk americano para falar sobre a vivência queer. Ele revela o aspecto frágil de seu timbre vocal para nos trazer narrativas marcantes e disruptivas. Ele faz uso da violência de timbres distorcidos para falar sobre vivências positivas. Há uma urgência em celebrar as suas vivências, tais como elas realmente são: complexas. E o próprio título do registro marca essa característica de Perfume Genius.

Pode até parecer que o contraste constante entre sentimentos antagônicos é algo que confundiria o ouvinte. Mas, na verdade, esta é a marca que torna Set My Heart On Fire Immediately tão potente. Não estamos diante de uma versão romantizada dos fatos. Trata-se de uma apresentação tal qual ela se encontra na vivência de Mike. O grande diferencial deste registro em relação a outros momentos de sua discografia diz respeito à forma como a força das composições vem sustentada por elementos, ironicamente, frágeis. A base da narrativa de Mike é justamente aquilo que é vulnerável.

Isto fica evidente nas faixas do disco. “Whole Life” inicia o disco com uma voz trêmula e acordes suaves de piano que logo cedem espaço para arranjos de cordas dos anos 1950. “Jason”, por sua vez, traz a voz aguda de Mike Hadreas narrando um encontro sexual pintado sob tons do Folk americano sessentista – contraponto de um gênero homofóbico com o explícito ato. “Your Body Changes Everything” traz sintetizadores pontuais em uma aura meio gótica, escura, porém sedutora. “Nothing At All” utiliza a distorção de baixos graves envolvendo a áspera melodia vocal, enquanto sintetizadores entoam arpeggios. Um caos orquestrado. O disco se encerra com a etérea “Borrowed Light”, que nos deixa suspensos em influências Ambient.

Com isso, Perfume Genius nos entrega uma experiência catártica, uma que transcende sua existência. Há uma ânsia em usar seu corpo como propulsor de um grande incêndio, um que não o mataria, mas o exaltaria, tal como uma tocha olímpica. Mike se destrói para poder renascer.

(Set My Heart On Fire Immediately em uma faixa: “Your Body Changes Everything”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.