Resenhas

Perfume Genius – Ugly Season

Sexto disco de Mike Hadreas é o mais ambicioso, sensual e experimental de sua carreira

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Ano: 2022
Selo: Matador Records
# Faixas: 10
Estilos: Experimental, Avant-garde, Chamber Pop
Duração: 52'
Produção: Blake Mills

“Sensualidade” é uma característica que, quando atrelada à música, pode estar associada ao lado estereotipado da coisa. Por vezes, apontamos canções como “sensuais” quando há riffs de guitarra lentos e precisos, vozes suaves quase sussurradas aos ouvidos e grooves profundos de baixo. E a “sensualidade” é, antes de mais nada, uma relação entre corpos – seja de um com outro externo, ou de um corpo sentindo a ele mesmo. Não estão apenas em jogo as relações eróticas, mas qualquer tipo de interação com o corpo. Mike Hadreas, nome à frente de Perfume Genius, coloca o corpo e seus mistérios como um tema constante de sua obra.

Durante a década de 2010, Mike dedicou grande parte de sua obra a investigar as diferentes configurações dos corpos que ele já ocupou em sua vida. Nos primeiros discos (em especial Learning, de 2010) a fragilidade das composições formava um corpo quebradiço, representado por uma sonoridade que navegava entre o folk e o indie, e que expressava a experiência de intolerância à sua sexualidade. Em um segundo momento, Mike começou a compreender seu corpo como mais do que um diário de cicatrizes do passado, assumindo uma postura mais robusta e firme diante do presente – basta ver o clipe de “Queen” e os nomes de faixas como “Set My Heart on Fire”. Assim, é possível notar que Mike tem não apenas grande interesse por esta temática, como uma profunda relação pessoal com o tema –  afinal, é o seu corpo que está expresso nas diferentes composições de Perfume Genius. Agora, em seu novo disco de estúdio, Mike traz para os ouvintes um corpo que parece reunir muitas vivências e cicatrizes e que significa coisas diferentes para cada pessoa, em cada tempo. Enfim, um corpo complexo.

Ugly Season mantém o caráter peculiar da discografia de Perfume Genius e a eleva a um novo patamar – a ambição experimental. Seu sexto disco é o mais ousado até aqui, no que diz respeito à pesquisa sonora e ao desapego de qualquer estrutura pop ou de uma canção padrão. Este é um momento em que Mike propõe novas formas de manejar sua voz, criando uma atmosfera que se assemelha a uma peça de teatro – tamanha a intensidade dramática e narrativa do disco. Dessa forma, o corpo analisado por Mike é o mesmo dos trabalhos passados, mas com a diferença de que, agora, ele tem total domínio sobre ele para poder distorcer, quebrar, remontar, transformar como bem entender. Faz sentido que este disco soe menos pop, pois ele requer do ouvinte um desapego das convenções e daquilo que supomos já saber sobre Perfume Genius. Pode ser pouco acessível a públicos menos dados ao experimentalismo, mas certamente desperta a curiosidade e capta a atenção.

As cordas graves no início de “Just A Room” dão ao disco um tom operático, como se Mike estivesse mostrando o prólogo desta aventura de descoberta de si próprio. “Herem” brinca com a voz frágil do artista, mas, ironicamente, ela parece, também, trazer uma grande força, como se a delicadeza de sua linguagem fosse o maior testemunho de sua força. “Ugly Season” desafia qualquer possibilidade de categorizar a sonoridade presente, pois transita, simultaneamente, por terrenos de dub, psicodelia e glitch music. A típica balada romântica é representada por “Photograph”, mas descarta o “mel pop” e vai para um lado mais próximo da dramaticidade de um tango. Por fim, “Cenote” traz a suavidade do piano para encerrar o trabalho, completando uma espécie de ciclo temático que volta para aquele estrondo do começo.

Ugly Season é o disco mais sensual de Mike Hadreas e cria uma representação sonora da sensualidade corporal como ela, de fato, é: metamorfa. Apostando em um experimentalismo latente, o novo álbum de Perfume Genius explora a relação do artista com seu corpo – seja como mapa de suas marcas e cicatrizes de vivências ou, de uma só vez, como um testemunho da complexidade desta conexão.

(Ugly Season em uma faixa: “Herem”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.