Resenhas

Pet Shop Boys – Very

Disco alia a vivacidade da Dance Music a um discurso político ácido de denúncia sobre os anos 1990

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Ano: 1993
Selo: Parlophone
# Faixas: 12
Estilos: Synthpop, Dance Music
Duração: 53’
Nota: 4
Produção: Pet Shop Boys Stephen Hague e Brothers in Rhythm

Algumas características de Very, quinto trabalho de estúdio de Pet Shop Boys, o tornam verdadeiramente único dentro da discografia do duo. Este é um registro lançado logo após a primeira coletânea de hits, Discography: The Complete Singles Collection (1991). Ou seja, não estamos mais falando de uma fase amadora do grupo, que já colecionava icônicos singles como “It’s A Sin” e “West End Girls”. Além disso, uma série de reedições posteriores o colocam como um dos trabalhos mais revistos e reeditados dos ingleses. A composição deste álbum mostra, dessa forma, que um intenso trabalho de exploração sonora foi feito, gerando muito conteúdo extra para ser apreciado mais tarde pelos fãs. Entretanto, o que realmente faz de Very, único, é a habilidade de transformar a Dance Music em um instrumento de denúncia, cru e ácido.

No álbum, o grupo permanece fiel à sua predileção de dar a seus LPs nomes compostos de apenas uma palavra. Nessa escolha, somos orientados a seguir um caminho, utilizando os timbres dançantes de sintetizadores como uma ferramenta para ilustrar o conceito escolhido. Aqui, o “Very” (muito) nos mostra não só os excessos de uma época, mas as contradições políticas e culturais. Talvez por isso, o disco assuma um tom bastante soturno, principalmente em suas letras. Apesar disso, as composições são dançantes e agitadas. Aqui, vemos nítida uma semente do que Robyn faria mais tarde na década de 2000: o ato de dançar a desgraça e miséria de nossas patologias sociais. 

Very marca o primeiro momento em que Neil Tennant discute publicamente sua homosexualidade, algo que já era fofocado entre o meio algum tempo antes. Dessa forma, um dos temas expostos aqui fala justamente da década em que a AIDS marcava os noticiários. Na intensa “Dreaming Of The Queen”, um etéreo e disperso pad de sintetizador nebula nossos sentidos, como se não fosse possível enxergar além da confusão. Somado a isso, a letra da música nos encaminha para um cruel desfecho, no qual, em um diálogo com Lady Di, afirma-se: “Não existem mais amantes vivos / ninguém sobreviveu/não existem mais amantes vivos / e, por isso, o amor morreu”.

A canção “The Theater” também contrapõe paradoxos sociais, em um arranjo Dance Music com cordas bastante trágicas. Nela, o duo narra o quão irônico é que as pessoas formam filas para ver peças de teatros, em suas roupas chiques e caras, mas não tem um minuto para olhar para as crianças desabrigadas de Londres (“Nós somos os vagabundos que você pisa sobre quando sai do teatro”). Em “Yesterday When I Was Mad”, nem mesmo o próprio Pet Shop Boys escapa da impiedade da década, na qual é abordada a voracidade do mercado fonográfico e como eles se sentem sufocados em um ambiente formado de bajuladores.

Very é um retrato vivo da época e isso é demonstrado também na forma como os arranjos são compostos. O efusivo Dance Music toma conta da maioria das músicas e, quando não, uma arrastada batida permeia as baterias eletrônicas. Soma-se a isso uma espécie de aura darkwave nas melodias, algo parecido com os primórdios de Depeche Mode. 

Assim, os excessos e acelerações dos anos 1990 ganham vida nesse disco, tanto como uma obra da época como um disco que critica o ponto ao qual as coisas aceleraram, deixando de lado nossa humanidade. Dessa forma, a única palavra que poderia dar conta desse cenário caótico e multifacetado é o “muito”.

(Very em uma faixa: “Dreaming Of The Queen”)

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ARTISTA: Pet Shop Boys
MARCADORES: Synthpop

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.