Resenhas

Pharrell – G I R L

Novo e esperado trabalho do produtor bebe da Neo Soul e do Funk. Confira a resenha de um dos grandes nomes do ano passado em sua aventura solo

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Ano: 2014
Selo: Black Lot, Columbia
# Faixas: 10
Estilos: Neo Soul, Funk
Duração: 46:54
Nota: 3.0
Produção: Pharrell Willians

2013 foi um ano inesquecível para Pharrell. À frente de parcerias certeiras em hits que figuraram no topo das paradas de sucesso mundo afora, como Get Lucky do duo de robôs Daft Punk e a carimbada em baladas Blurred Lines, feita com Robin Thicke, o músico, produtor e compositor teve um ano para ficar na memória. Evidentemente, a notoriedade que seu nome ganhou também tornaria o lançamento do segundo disco solo de sua carreira – após um hiato de oito anos -, G I R L, um trabalho a ser desfrutado no ano de 2014, independente do meio ou origem musical do ouvinte. Foi com a intenção de alcançar um grande público e utilizar-se de referências frescas e atuais que o músico criou este álbum. Mas será que podemos ter aqui mais um marco em sua produção artística?

Pharrell é conhecido pela sua capacidade em criar batidas. Em projetos como duo de produtores, Neptunes, fez singles de sucesso tais como I’m a Slave 4 U de Brtiney Spears e Hot in Herre de Nelly. Posteriormente, no grupo N.E.R.D, criaria ainda mais batidas, trabalhando sempre com nomes de sucesso como Jay-Z, Gorillaz e Kendrick Lamar, mas sempre atrás dos teclados e computadores, aparecendo eventualmente nos microfones mas sem tanto domínio ou expressão. O músico sempre salienta este ponto: de que ainda se vê em um ambiente estranho quando se torna o protagonista da voz, o condutor, no entanto, em seu novo disco demonstra controle e um leque de timbres invejável.

G I R L sinaliza-se como uma ruptura em seus trabalhos anteriores ao soar muito mais orgânico que produções ou participações anteriores, muito mais próximo do Funk que o Daft Punk revitalizou no ano passado junto a Niles Rodgers e companhia. Dançante, a obra se destaca pela sua facilidade de compreensão, seu Pop gostoso mas também acaba se perdendo aos poucos em sua própria estrutura. O lado A é feito sob medida para qualquer fã de R&B ou Funk setentista americano. Riffs de guitarra swingados, levadas de voz interessantes e uma incrível capacidade de grudar em seus ouvidos tomam este lado do disco feito para dançar ou simplesmente relaxar com uma música prazerosa.

Se o sonho de sua vida é trabalhar com Prince, faixas como Marilyn Monroe e Brand New são praticamente uma declaração moderna ao som do “rei do beijo”. Se a primeira música tem ares do primeiro disco de Justin Timberlake, a segunda é feita em conjunto com o cantor e tem uma pegada suingada deliciosa com aquela famosa guitarra repetida que deixa os pés mexendo. Sons de sopro são o revival do som da Disco. Se ambas as faixas são divertidas, seu tempo de duração acaba jogando contra ambas. São longas e com uma estrutura verso-refrão repetida em exaustão que enjoa o ouvinte. Falta aquele fade out em muitos momentos ou simplesmente uma transição que nos traga algo a mais do que a simples reprodução de um parte bem sucedida da música.

Hunter é outra declaração a Prince e Michael Jackson. Igualmente grudenta e Pop, revela um lado mais sexy do músico, mas carece de uma maior criatividade, soando muito idêntica a tais artistas. Vamos nos deparando com diversas faixas que combinam com festas ou momentos de curtição que fatalmente irão chamar a atenção mais pelo nome de Pharell e pelas referências que estão frescas na cabeça das pessoas do que pela sua originalidade. Sentimos a falta de um hit também, aquela música que gruda no seu ouvido e parece permanecer lá eternamente.

Isso ocorre em Happy que não é tão inédita assim. Presente no filme Meu Malvado Favorito 2 e popularizada com um clipe de 24 horas com participações de outros artistas, a música é o momento esperado. Divertida, contagiante está no mesmo patamar de singles de verão como Hey Ya do Outkast ou Crazy do Gnarls Barkley. Aliás, pense nesta trinca de músicas e você perceberá um padrão Pop intrínseco em comum. Feita para diversão pura, tocará muitas vezes por aí e o contato com a faixa acontecerá de uma forma ou outra.

Se o grande hit do disco já foi lançado anteriormente, temos um problema, certo? De certa forma sim, pois não vemos outras faixas alcançando o topos das paradas mas mesmo assim agradando qualquer pessoa apesar de sua inevitável repetição. Come Get It Bae chamará atenção pela parceira com Miley Cirus, no entanto a cantora está tão discreta na faixa que ficamos decepcionados. A sensação de “já ouvi isso em algum lugar “ parece ecoar nas dez faixas de G I R L. Retomamos um certo brilhantismo na ótima Gust of Wind feita com o Daft Punk.

Sua atmosfera é feita para condução de um carro em uma estrada infinita. Um jogo de cordas de violinos e violoncelos orquestrado por Hans Zimmer dão ainda mais impacto para a faixa. No entanto, o desenvolvimento da música fica restrito a seu ótimo riff e o refrão. Quando só a guitarra fica sendo tocado e tentamos capturar uma mudança estrutural, retomamos ao mesmo instante anterior. Repetição novamente, infelizmente. A gigantesca Lost Queen em seus oitos minutos é dispensável enquanto It Girl me parece genérica demais.

A parceira com Alice Keys funciona bem no ótimo Reggae, Know Who You Are e traz um pouco mais de frescor ao disco quando começa a tocar quase no final do lado B. Como obra, G I R L abraça a sua proposta de criar um disco Pop contemporâneo nas referências revistas, transformando em um produto da Neo Soul mas inevitavelmente soa como algo comum. Chama atenção pelos nomes envolvidos, por Pharrell e certamente estará sendo discutido em rodas musicais distintas, principalmente as populares. Ao fim, alcançará um grande público mesmo sem trazer um hit certeiro novo (Happy é de 2013) e agradará, de uma forma ou de outra. A falta das famosas batidas ou simplesmente versos de Rap, algo presente em toda a sua carreira, acabam ao fim chamando a atenção pois o organismo que conduz esta obra se mostra excessivamente genérico. Se a sua intenção é divertir-se sem compromisso, este trabalho satisfará suas necessidades. Caso contrário, poderá se decepcionar com o vácuo que este bom, porém comum, álbum pode deixar em sua vida após uma audição.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.