Resenhas

Phillip Long – Atlas

Sem deixar a qualidade cair, músico lança seu terceiro álbum do ano revelando uma carga de pessoalidade ainda maior do que nos trabalhos anteriores

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Ano: 2012
Selo: Independente
# Faixas: 13
Estilos: Folk, Indie Folk, Folk Rock
Duração: 50:30
Nota: 4.5
Produção: Eduardo Kusdra

Logo que você clicar no play em Atlas, pensará: “Sim, este é mais um disco de Phillip Long”. Tudo aquilo que já conhecemos dele está na bela Look Through My Window, então quem já gostava dos trabalhos anteriores do músico irá se simpatizar de primeira. À medida que as faixas avançam, novas nuances aparecem e, em meio a surpresas em maior ou menor grau, vem a constatação de que este é o disco mais “Phillip Long” que ele já fez.

Digo isso pelo músico mostrar que chegou a um ponto em que ele conhece suas melhores características e sabe usá-las a favor de sua arte, mas também pela carga de pessoalidade parecer ainda maior em composições mais sinceras do que as que aprovamos em seus três primeiros discos – o primeiro de 2011 (Man on a Tightrope) e os outros dois lançados há poucos meses (Caiçara e Dancing with Fire, todos também produzidos pelo parceiro Eduardo Kusdra. Essa característica aparece em canções, no geral, com uma interpretação mais sussurrada do cantor. Phillip desabafa sem exaltar a voz, encontrando o tom certo para transmitir sua melancolia – que aparece aqui em cargas ainda maiores, mesmo nos arranjos mais doces.

Moon Rising, a segunda faixa, já revela diversos desses elementos desde seu piano introdutório, que dá espaço a uma melodia à la Nick Drake em uma corda bamba entre a doçura e a depressão, acompanhada pelo violão em um passeio por algumas variações até chegar ao seu final dissonante. Ela sai de cena para entrar a primeira de duas versões de Blue Valentine, uma daquelas músicas que tem tudo para te fazer sorrir, mesmo com uma certa frieza no vocal. O dueto de violões inquietos nessa faixa beira o “Caipira Erudito”, assim como em diversos momentos do álbum daqui para frente, embora o caráter popular da música Folk não abandone a obra em momento algum.

O “lado A” do disco termina com a surpresa de uma faixa com a guitarra e o baixo elétricos acompanhados da bateria. É Strange Disorder, que vem para “causar” bem no meio do repertório com um Folk Rock provocativo, quase sacana. A segunda metade de Atlas revela também seu coração em uma sequência de músicas turbulentas na medida certa: Little Lion from the Sea parece uma cantiga infantil para adultos, Animal Side é lucidamente esquizofrênica em suas variações e Down in the Ocean é introduzida por um vocal mais alto e emocionado do que nas outras canções. Uma tríade que joga o ouvinte emocionalmente para diversos lados, um mais bonito que o outro.

A faixa-título também tem uma pegada de Nick Drake, cheia de emoção sóbria e cotidiana. Daí para frente, só uma pequena faixa instrumental, Swan Song, para conseguir nos fazer respirar novamente antes do fim com a dupla Done e Slow Down – o que é irônico, já que “desacelerar” parece algo inexistente na vida de Long, que já prepara seu quinto disco, um “bem mais Rock’n’Roll” dessa vez.

Aparentemente, o que ele quer é que essa prática leve à perfeição, mas a verdade é que a parceria Phillip Long + Eduardo Kusdra tem dando muito certo e a última coisa que se poderia fazer é mexer na dinâmica de um time que tanto ganha. Produzir em um ritmo quase industrial é algo que diversos músicos e produtores fazem ao redor do mundo sem se importar com a qualidade, mas criar tantas músicas boas com essa compulsão sem decepcionar é, no mínimo, genial.

Atlas é o deus grego que carrega o mundo em suas costas. Para mostrar o peso que leva em sua vida, o músico se abre nas canções e aparece pela primeira vez em uma capa, na sinceridade do peito despido. Não é fácil ser Phillip Long, assim como não é fácil para qualquer pessoa ser quem é – e apresentar esse conceito faz Atlas ser o mais pessoal dos trabalhos do cantor, talvez um dos discos mais humanos que você ouvirá nesta temporada.

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BOM PARA QUEM OUVE: Phillip Nutt, Bowerbirds, Bon Iver
ARTISTA: Phillip Long

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.