Resenhas

Phillip Long – Cat Days

Com metáforas e sinceridade, décimo disco do compositor é tocante e verdadeiro

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Ano: 2015
Selo: Independente
# Faixas: 9
Estilos: Folk Rock, Indie Rock, Singer-songwriter
Nota: 3.5
Produção: Eduardo Kusdra

A cabeça de Phillip Long é uma fábrica de pensamentos. Com a incrível marca de dez discos em cinco anos, o compositor de Araras (SP) sempre se sentiu confortável em dividir as (várias) impressões de seu mundo por meio de músicas extremamente sinceras e ecléticas. Podemos pensar em vários Phillip, cada qual norteando a interpretação e ambientação de seus registros, como o apaixonado compositor no disco Gratitude) até o filosófico e complexo Zeitgeist. Ao contrário de seu último registro, o músico não esconde em metáforas a motivação que o levou a compor estas novas canções: um término de relacionamento, que o deixou literalmente agindo como um felino. Cat Days vem ilustrar a reação e a avalanche de pensamentos e teorias que vieram a povoar a cabeça do músico durante este período e, como todo trabalho de Phillip, ele exige de nós uma atenção redobrada.

Não é a primeira fez que o músico usa o símbolo felino para traduzir suas impressões. Gratitude se usava de uma sutil ironia, na qual os gatos não são exatamente os animais mais gratos e, portanto, a figura criava um jogo ambíguo que ilustrava canções extremamente românticas e sedutoras. Já aqui, o gato perde o aspecto simbólico e reforça seus status icônico, no qual os hábitos e qualidades do animal são a principal metáfora neste momento pós-término. Phillip Long e seu já conhecido companheiro de composições Eduardo Kusdra evitam cair em clichês de singer-songwriter, embora canções como Close To Disappear e A Bend In The River mostrem alguns traços deste gênero usado tantas vezes por compositores para expressar suas respectivas dores.

Cat Days entra em um território bastante Indie, com melodias chiclete, arranjos simples e com instrumentações que beiram o Lo-fi. Diferente de lugares comum deste gênero, Phillip tenta conduzir o ouvinte por diferentes sensações e humores. Se a bela Fly Away pinta cenários melancólicos e tediosos (no sentindo de dar vida ao tédio que o gato sente), Almost Dead é alegre, quase celebrando este estado de morte. É interessante como o compositor trabalha com sentimentos ambíguos com letras e instrumentações opostas, refletindo o mistério que é decifrar o espectro emocional de um gato. É aí que reside a metáfora primordial do disco: o quão irônicas são nossas emoções durante o término e quanto elas fazem total sentido na hora em que são produzidas.

Phillip Long mais uma vez mostra que suas músicas são muito mais do que partituras com letras bonitas. Há um sentimento puro e transmitido de forma muito plena, colocando Cat Days entre as obras mais sinceras do compositor. Uma ótima pedida tanto para quem acabou de sofrer o mesmo episódio que Phillip Long, quanto para quem um dia já passou por isso.

Um trabalho verdadeiro.

(Cat Days em uma música: Fly Away)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.