Resenhas

Pink Siifu & Fly Anakin – FlySiifu’s

Em novo projeto colaborativo, dois notáveis rappers do atual underground americano unem forças, complementam personalidades e comandam loja de vinis

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Ano: 2020
Selo: Lex Records
# Faixas: 22
Estilos: Rap
Duração: 46'
Produção: Madlib, Jay Versace, Ahwlee, Lastnamedavid e outros

Pink Siifu e Fly Anakin são dois nomes do Rap underground americano para se ter no radar. O primeiro, que já apareceu por aqui com a mixtape KRYPTONITE, inspirada no Memphis Rap, e com sua obra-prima ensley, lançou no ano passado o excelente, agudo e visceral NEGRO., que mescla Punk Rock e Rap para falar da raiva perante a violência racial nos Estados Unidos. Já Fly Anakin, a outra metade da dupla FlySiifu, é parte do coletivo de Rap Mutant Academy, de Virginia, e seus lançamentos At The End of The Day. e The 8’s mostram seu potencial como spitter, desfilando habilidade em beats refinados e versos dedicados. No álbum colaborativo da dupla, o lado de rapper clássico de Fly Anakin se une às rimas mansas e conceituais de Siifu em um disco amarrado por bom humor e skits.

O conceito de FlySiifu’s acompanha o dia dos rappers como dois funcionários de uma loja de discos de vinil. É como se Ed e Dexter Reed, de Good Burger, trabalhassem na loja de Rob, de High Fidelity, com uma pitada do universo caótico de Friday. Isso resulta em divertidas e, por vezes, profundas conversas que o proletário tem em qualquer lugar do mundo: abrir a loja, família, medo, morte, ser preto, dia do pagamento, flertes… Todos esses assuntos são intercalados por skits que servem como alívios cômicos – na maioria das vezes, reclamações de clientes irritados pelo atendimento desleixado dos dois.

Na loja, Fly Anakin e Pink Siifu atendem os mais diversos tipos de clientes que são, na verdade, projeções das influências dos dois artistas, principalmente no que tange os instrumentais com vibe de devaneios pós-almoço e fortemente baseados em loops de sample e baterias texturizadas. As referências vão de J. Cozier a Innervisions, clássico de Stevie Wonder, passando por Dilla. Um dos clientes da loja, inclusive, pergunta se eles têm o clássico Welcome 2 Detroit – primeiro disco de J Dilla, lançado em 2001 –, claramente uma das principais inspirações do projeto, além da obra de Madlib, responsável pela batida de “Time Up”.

O que mantém o projeto coeso, mesmo com rappers donos de abordagens tão diferentes, certamente é o conceito de loja de discos somado às personalidades quase complementares de ambos. Aquela clássica química de personagens: Fly Anakin, a figura prática e mais objetiva, e Pink Siifu, o “viajado” que volta e meia solta aquela frase que desvenda a trama ou deixa todo mundo pensativo. Essa dinâmica fica evidente em faixas como “Spades”. As participações do disco aparecem principalmente em skits, como a hilária participação de BbyMutha em “Black Bitches Matter Hoe”, mas também por meio do imenso talento de Liv.e, colaboradora recorrente de Siifu, que colabora em “Clean” e “Mind Right”. “What is a lie when everything you perceive is the blues? / What is the truth if I can’t even feel if it’s true / What do I do when I’m stuck between pick and a choose? / Disconnect me off the line, I let you call when there’s proof”, ela rima.

Durante todo o trabalho, o contraste entre os dois é muito perceptível, mas isso não é, de forma alguma, um ponto negativo. Anakin e Siifu são irmãos, frutos de uma mesma árvore genealógica que contém, entre muitos ascendentes, as batidas de Jaylib, a ousadia de OutKast e o formalismo de Ghostface Killah. Em FlySiifu’s, esses dois irmãos batem papo amparados por um conceito dos mais criativos e bem-humorados, com um apuro artístico capaz de agradar todo ávido fã de rap.

(FlySiifu’s em uma faixa: “Mind Right”)

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