Resenhas

Pino Palladino/Blake Mills – Notes With Attachments

Em jogo de opostos interessante, parceria entre músicos proporciona experiência jazzística virtuosa e, ao mesmo tempo, acessível

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Ano: 2021
Selo: Verve Label Group
# Faixas: 8
Estilos: Jazz, Avant-garde, Experimental
Duração: 31'
Produção: Blake Mills

Um primeiro contato com o Jazz pode ser intimidador. É uma estrutura diferente do padrão e a imprevisibilidade dos arranjos certamente pode ser um desafio para aqueles que se apoiam na estrutura básica de verso-refrão-verso-refrão. Talvez por isso, o Jazz ainda conserve uma característica bastante elitista, como se, para que alguém pudesse apreciá-lo, fosse preciso saber muito sobre música – como um pré-requisito. De forma geral, ainda existe um purismo grande por parte de músicos de Jazz, porém é preciso levar em conta que também há uma força oposta que procura evitar estes tradicionalismos.

Cada vez mais escutamos artistas contemporâneos que enxergam elementos no Jazz capazes de se unir aos mais diversos gêneros musicais – dentre os quais podemos citar, por exemplo, Kendrick Lamar, com seu seminal To Pimp A Butterfly (2015) e Flying Lotus. Há uma democratização do Jazz, ao mesmo tempo em que ele se transforma a cada nova mistura. Isso acaba entrando em contato com uma das particularidades do gênero: o improviso e a experimentação. Felizmente, o produtor Blake Mills e o baixista Pino Palladino sabem disso como ninguém e, em seu primeiro disco colaborativo, parecem tomar para si o desafio de tentar experimentar ao máximo com o Jazz, ao mesmo tempo que o deixam extremamente acessível – quase como um disco Pop.

Esta parceria une dois artistas de backgrounds diferentes, mas que se encontram em diversos momentos. Blake Mills é um produtor que há tempos percorre caminhos entre o Indie e o Pop, trabalhando em conjunto com artistas como Alabama Shakes, Fiona Apple e Perfume Genius. Além disso, no ano passado, lançou o aclamado e emocionante disco solo Mutable Set. Já Pino Palladino é um contrabaixista galês que é famoso pela característica suave de seu baixo. Esta dinâmica precisa e mansa de seu instrumento é um elemento pontual de alguns dos discos dos quais trabalhou, entre os quais destacam-se Voodoo (2000) de D’Angel,o e Continuum (2006), o melhor disco de John Mayer. Os trabalhos de ambos podem não ser conhecidos por uma expressão mais clara do Jazz, mas certamente há elementos do gênero entrepostos por estes discos –  seja em uma frase mais ousada de baixo de Pino, ou na escolha de timbres mais experimentais de Blake. Agora, com Notes With Attachment, há um campo totalmente livre para que o experimentalismo e a devoção pelo Jazz se manifestem. Uma manifestação que nos confunde a todo instante – no melhor sentido do termo.

Notes With Attachment é um disco complexo e virtuoso – não há dúvidas sobre isso. Há momentos em que somos expostos a melodias tão contraditórias que nem ao mesmo sabemos como nos sentir. O contrabaixo acústico de Pino dita as notas de uma maneira bastante jazzística e produz diferentes humores a cada mudança brusca. Soma-se a isso o talento de Blake Mills enquanto um exímio contador de histórias sonoras, enxergando em cada textura e timbre uma possibilidade de levar o ouvinte para lugares desconhecidos. Outro destaque do disco fica por conta do ritmo quebrado que nos desafia a encontrar a batida correta com nossa cabeça.

Entretanto, apesar da complexidade própria da proposta do disco, este é um registro completamente acessível e que vai contra aquela ideia do Jazz como uma música que só músicos podem apreciar. E isso fica claro em como todos aqueles elementos anteriormente citados são facilmente assimilados, apesar de complexos. O contrabaixo de Pino tem vida própria, mas nos conforta a cada compasso. Os timbres esquisitões de Blake são exatamente aquilo que nos fisga ao escutar as composições – como uma boa primeira frase de um livro. Até mesmo as batidas quebradas de bateria, eventualmente, encontram um ponto de sincronia com nossas cabeças, permitindo curtir o groove suavemente. É esse jogo de opostos que prende o ouvinte.

Para abrir um disco denso como este, alguns minutos de preparação são necessários e, assim, a faixa “Just Wrong” foi a responsável para esta missão, introduzindo aos poucos os flertes com Jazz e o experimentalismo que explodirá em sequência. “Ekuté” lembra um samba distante com sua percussão malemolente, para que alguns minutos depois, se transforme em uma batucada distorcida, destruidora e acompanhada de arranjos de metais firmes e potentes. Para descansar, a faixa que dá nome ao disco conduz o ouvinte por trompetes e saxofones quentes, porém manipulando algumas frequências para dar um toque mais inquieto a esta suavidade. “Chris Dave” poderia facilmente ser um sample de Hip Hop, dado seu groove contagiante e o jogo de percussões pontuado e que vem de diferentes direções. Por fim, “Off The Cuff” encerra o registro dando protagonismo para o baixo e sintetizadores, em uma dança sincronizada, repleta de tensão e alívio.

Notes With Attachments é um trabalho virtuoso, mas completamente acessível para um público menos ávido por músicas experimentais. Este talvez seja o grande barato do disco: como tudo o que escutamos são duas coisas ao mesmo tempo. Complexo e assimilável. Virtuoso e simples. Caótico e minimalista. Os opostos que não deveriam se juntar são unidos de forma harmônica, como se nunca tivessem sido separados.

(Notes With Attachments em uma faixa: “Chris Dave”)

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ARTISTA: Blake Mills

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.