Resenhas

Pole – Fading

Produtor alemão segue linha experimental e faz uso preciso dos silêncios para expressar lacunas e esquecimentos criados pela contemporaneidade

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Ano: 2020
Selo: Mute Artists
# Faixas: 8
Estilos: Experimental, Drone, Minimal
Duração: 50'
Produção: Stefan Betke

O trabalho do produtor e compositor alemão Stefan Betke parece estar constantemente adquirindo novas formas e significados. Sempre defendendo uma postura bastante experimental e pouco previsível, Stefan trata cada disco como uma evolução em relação a seu antecessor. Aqui, o termo “evolução” não vem empregado no sentido estrito de uma constante melhoria na qualidade geral dos registros, mas na forma como cada projeto cria um diálogo com a época na qual foi lançado.

É como se cada disco tivesse um caráter adaptativo e camaleônico, como uma esponja que absorve as particularidades daquele tempo. A célebre sequência de discos 1 2 3 (2008), por exemplo, captava o antagonismo de uma tecnologia que, apesar de simples quando comparada à atual, já mostrava fragilidades e problemáticas – tudo isso expresso em um Ambient descontraído. Por sua vez, Wald (2015) é mais ágil e sorrateiro, principalmente nos flertes com a Glitch Music, reflexo de um volume massivo de informações que suscetivamente ofusca a visão global dos usuários e os isola em bolhas. Após três anos de seu último lançamento, Con-Struct (2017), Stefan retorna sob o nome de Pole. O desafio agora foi: como capturar a essência de uma época que é tão fortemente efusiva e plural?

Esta poderia ser uma deixa para que Stefan produzisse um trabalho caótico e multifacetado, mas o que ouvimos em Fading é uma proposta que abarca a essência da atualidade por um viés talvez menos óbvio: o esquecimento. Ao invés de acrescentar mais e mais elementos, Stefan opta por trabalhar com uma dinâmica subtrativa e retira camadas justamente para demonstrar o quanto isso parece reger a contemporaneidade. O disco é construído a partir de vazios precisos e, apesar de não ser um trabalho silencioso, são esses espaços entre os instrumentos que dão o toque final ao acabamento bem polido do disco. Não é preciso preencher cada lacuna existente nos arranjos, pois a parcimônia já é suficientemente comunicativa.

O tema do esquecimento tem um significado pessoal para o músico, que diz respeito a sua mãe. Já falecida, ela conviveu com um diagnóstico de Alzheimer nos últimos anos de vida, e memórias acumuladas durante 91 anos foram se esvaindo. O fato certamente tocou o produtor alemão e, de uma forma ou outra, Fading se faz como uma metonímia dos dias atuais, em não nos damos conta de que, de repente, esquecemos das coisas. Os arranjos do disco são construídos nesse sentido – como se os espaços que existem e são percebidos fossem de instrumentos que deveriam estar lá, mas já não ocupam mais espaço. É uma sensação de que alguma coisa está faltando e que esta falta é o elemento primordial das composições. Preencher este espaço seria muito apressado.

Assim, essa relação paradoxal e contínua entre falta e preenchimento promove sensações complexas aos ouvidos daquele que ousam se aventurar pelo disco. “Tangente”, por exemplo, se desenvolve em um ritmo muito concreto, mas, com cuidadosa atenção, reparamos que o que forma a sensação estável da batida é a imprevisibilidade. Já “Erinnerung” preenche o espaço, principalmente por conta de seus reverbs, apesar de eles serem empregados em pouquíssimos elementos da música, como um excesso de uma única partícula. “Röschen” se ergue por meio de quebradiços fragmentos de baterias, ainda que soe como um único filamento de sonoridades.

O novo capítulo da obra de Stefan Betke se constrói a partir de uma sensação de apagamento. Uma sensação desesperadora e inevitável – e, justamente por conta da segunda característica, nos envolve em uma segurança de nos largarmos frente a esse universo que aos poucos se esvai. Fading é um trabalho que ecoa o sentido da contemporaneidade. Um sentido que vem da falta e das lacunas que surgem desenfreadamente ao nosso redor.

(Fading em uma faixa: “Erinnerung”)

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ARTISTA: Pole, Stefan Betke

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.