Resenhas

Porches – Ricky Music

Dramático, Aaron Maine traduz sentimentos complexos com romantismo, nostalgia e flertes pelo Pop

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Ano: 2020
Selo: Domino
# Faixas: 11
Estilos: Indie Pop, Synthpop
Duração: 26'

Quando o vocal cansado, quase apático, canta “I am so happy I could die” na segunda faixa de Ricky Music, há uma grande pista para desvendar o álbum: no lugar de uma interpretação tradicionalmente emocionada, Porches entrega um trabalho no qual projetamos nossa sensibilidade a partir de estéticas que logo identificamos como familiares.

O que quero dizer é que, em nossa cultura de música onipresente – de trilhas sonoras a salas de espera –, é fácil reconhecer uma construção romântica, da melodia à escolha de timbres, que crescemos ouvindo no rádio ou onde for. E a melancolia das canções românticas já passou pelas mais diversas ressignificações: há desde músicas para dançar chorando a aquelas cuja carga emocional é tão pesada, que chega a soar apática, por mal conseguir sair do lugar – principalmente em uma era “pós-Lana Del Rey”.

O trabalho de Aaron Maine neste disco se concentra principalmente na última categoria. Logo antes da já mencionada “Do U Wanna”, Ricky Music abre com os versos “cause I’m rooting for you/and I’m rooting for me” (em “Patience”) entoados com pouca energia, sustentados pelo autotune. Está longe de ser aquele sentimentalismo rasgado de divas Pop, por exemplo, mas a canção sabe resgatar no ouvinte aquela referência a um romantismo nostálgico, guiado por violão nos momentos intimistas e sintetizadores no clímax.

Não é difícil notar, entretanto, que o vocal está sempre em um primeiro plano absoluto em todas as faixas. Isso não é à toa – quer dizer que toda essa base conceitual existe para apoiar as letras, ao contrário dos (muitos) casos em que há versos só para adicionar mais uma camada ao som. É mais fácil perceber essa característica em músicas mais “minimalistas”, como “Hair” ou no início de “Wrote Some Songs”, porém ela se faz presente também nas que trazem sons mais preenchidos, caso das baladas “I Can’t Even Think” e “Lipstick Song”.

Ricky Music tem espaço também para as surpresas. A primeira é “PFB”, tão curtinha (33 segundos) que mais parece uma vinheta. Ela surge como uma brincadeira Indie Rock no meio das baladas românticas, com a repetição de “it’s looking bad/it’s looking pretty fucking bad”. Seguindo a linha de suas companheiras de repertório, a faixa se aproveita da forma como o estilo é percebido para possibilitar uma leitura imediata da parte do ouvinte. “Madonna” é a outra que destoa das demais por trazer um clima dançante, enquanto Maine canta sobre sentir a solidão no desejo de reatar um relacionamento.

Tudo é dramático, tudo parece ser carregado de significado. Em meio a tantos artifícios de estilo, surge “Fuck_3”, faixa que traz emoções mais palpáveis na interpretação, por cima de uma estrutura dissonante e até descompassada. E, mais uma vez, Ricky Music ganha mais uma pista para ser entendido: Porches não brinca com maneirismos à toa, ele faz escolhas que traduzem a complexidade do que sentimos em um formato de fácil compreensão por qualquer um que tenha sido exposto a canções românticas em algum momento da vida. E do vírus do Pop, felizmente, nenhum de nós está imune.

(Ricky Music em uma faixa: “Do U Wanna”)

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ARTISTA: Porches

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.