Resenhas

Primal Scream – More Light

Banda retorna à ativa após cinco anos com um disco recheado de psicodelia e música eletrônica, mostrando-se ainda relevante para a música atual.

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Ano: 2013
Selo: Ignition Records
# Faixas: 15
Estilos: Rock Alternativo, Acid House
Duração: 68:28
Nota: 4.0
Produção: David Holmes

Um retorno às raízes, muitas vezes, mostra-se como a decisão correta a ser feita por uma banda com um tempo grande de estrada. Indiretamente, o novo disco do Primal Scream remete ao som que consagrou o grupo no início da década de 90 com o clássico Screamadelica. Lançado no mesmo período de Nevermind do Nirvana, o álbum redefiniu a música naquele momento ao fornecer uma obra com elementos de Rock Alternativo misturados à Acid House, criando um híbrido eletrônico que influenciaria vários artistas posteriormente. O som psicodélico do grupo retorna em altíssimo nível em More Light.

Mas por que estão retomadas as origens do sucesso do grupo? Tal fato ocorreu após uma extensa turnê em que o Primal tocava o famoso disco integralmente, com projeções lisérgicas no telão, utilização de coros de vozes e uma grande banda de apoio. Esta excurssão passou por diversos lugares, com shows lotados no Reino Unido, belíssimas apresentações em festivais e uma passagem inesquécivel por terras brasileiras em 2011. Vi este concerto em duas oportunidades e posso garantir que ambos estão muito bem guardados em minha memória como momentos únicos de minha experiência musical. Curiosamente, o disco que colocava batidas mais viajadas na música eletrônica não é tão bom se escutado em seu formato gravado. No entanto, em um show as coisas se mostram muito mais relevantes e surpreendentes, devido a uma troca na ordem das faixas e uma interessante mudança de arranjos

Em More Light estamos diante de um caminho oposto do que o visto em Scremadelica (uma obra que soa muito bem gravada.) A sensação que temos é que os ares psicodélicos trouxeram uma aura tântrica ao som do Primal Scream. Faixas como River of Pain, com a utilização de cítaras e tambores de percussão ou a excelente Relativity, com alguns pés na música indiana, fazem do disco um ótimo acompanhamento para momentos de reflexão, com estes mantras transcendentais. O lado mais eletrônico e voltado para as pistas se dá com as empolgantes Hit Void e Turn Each Other Inside Out, a segunda interessante pela boa interação entre baixo e guitarra, criando uma textura musical viciante.

O disco é realmente extenso em seu número de faixas, temos aqui 15 no total, o que acarreta em uma certa dispersão na influência dos ritmos sonoros. No entanto, a banda mostra que está em ótima foma, ousando corretamente em alguns momentos e criando peças musicais únicas. O ótimo Blues de Elimination Blues tem uma clara pegada eletrônica mas soa extremamente orgânico em seu solo de guitarra e ainda traz a participação de Robert Plant nos backing vocals, o que torna este um dos melhores momentos do álbum sem sombras de dúvida. Existem brincadeiras como Goodbye Johhny, momentos a la Rolling Stones como a I Want You, Punk Rock em City Slang e uma melódica balada em Walking With The Beast, todas muito bem executadas e com muitos toques de lisergia.

Mas são os momentos que realmente tangem a psicodelia que o disco mostra o seu verdadeiro valor. 2013 abre a obra de forma matadora e hipnótica em seus nove minutos de duração. Uma batida constituída não só por sintetizadores, mas principalmente por um saxofone em delay, a transformam em um hit instântaneo e necessário de ser escutado ao vivo. O tempo parece não ter passado e os anos 90 ecoam de forma clara e inesquecível. A letárgica e sexy Culturecide, cantada de forma sussurrada por Bobby Gillespie é outro momento que deve se portar muito bem em concertos. It’s Alright, It’s OK é uma continuação espiritual do clássico Movin’ On Up e faz com que cada fã do grupo sorria intensamente, mesmo que soe tão parecida com a música presente em Screamadelica.

A turnê e a retomada de uma obra única serviram muito bem de inspiração para as novas composições do Primal Scream, e fazem de More Light o melhor momento do grupo em muito tempo. Diferentemente de momentos anteriores, aqui vemos mais uma vez um disco que pede uma apresentação dedicada. Apesar de não ser única em sua sonoridade, passando do Blues, Acid House ou Rock Alternativo, o grupo trouxe o espírito psicodélico e viajante de seu melhor álbum, surpreendendo positivamente e mostrando que o grupo ainda consegue ditar tendências no meio musical atual.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.