Resenhas

Princess Century – s u r r e n d e r

Maya Postepski traz investigação emocional que repercute diretamente na paleta sonora de seu novo registro

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Ano: 2021
Selo: Paper Bag Records
# Faixas: 13
Estilos: Minimal Techno, Ambient Music, Pop
Duração: 49'
Produção: Maya Postepski

Maya Postepski é uma talentosa “escolhedora de sons”. Desde cedo, a canadense apresenta uma paleta sonora que parece traduzir especificamente as sensações compostas nos respectivos discos. Artistas como Austra, Peaches e TR/ST são alguns dos nomes que se beneficiaram da escolha precisa de Maya, trazendo para a mesa uma estética sonora que, emobora complexa, soa coesa e harmônica. É quase como um trabalho de curadoria, que transita por diferentes subgêneros da música eletrônica a fim de encontrar a narrativa mais precisa.

Mas não são apenas em histórias alheias que Maya pode utilizar seu olho e ouvido atento. Desde 2015, ela vem lançando um trabalho solo pautado na investigação de suas próprias histórias sob o nome de Princess Century. O mais curioso é que o que parecia ser uma oportunidade para empregar toda a sua persona produtora, revela-se um exercício de tentar largar mão desse controle criativo. A coesão de outros momentos cede espaço para uma composição acêntrica, cuja marca própria é justamente a ausência de um estilo particular. Maya traz quase uma máxima psicanalítica: ouvir e direcionar o discurso do outro é uma coisa, agora fazer o mesmo consigo próprio já é outra história.

Deste lugar de certa imprecisão com relação às próprias experiências é que nasce seu terceiro disco, s u r r e n d e r. Em seu release à imprensa, Maya traz um sentido para o título de se entregar completamente a si própria, e não de uma bandeira branca de desistência. Apesar de ter muito a investigar, a produtora canadense coloca este disco em particular como um momento em que a vulnerabilidade é seu principal recurso de composição. Trabalhar para outros artistas implica em uma tarefa de escolhas, mas trabalhar para si mesma requer um trabalho de elaboração, organização e exposição – ou seja, um trabalho muito mais exigente. Assim, é a partir dessa natureza árdua, complexa, porém profunda, que o disco ganha sua forma final. Todos os pedaços reunidos aqui são fruto de uma coragem de mostrar os diferentes pedaços de Maya. E como são diferentes estes pedaços.

Como primeiro movimento para dentro de si, Maya nos entrega a introspectiva e dançante “Still The Same”, uma canção (algo raro em sua discografia) que já envolve o ouvinte no complexo emocional dos relacionamentos e seus movimentos. “Wanting You”, por sua vez, trabalha com timbres mais pontuais da Ambient Music, deixando à subjetividade das texturas a tarefa de desenhar algum sentido para o rebuliço sentimental que é processado. Com participação de Fragrance, “Stupid Things” se aproxima do Pop oitentista e das baladas românticas caprichadas no laquê e roupas neon. “Gravitron” também parece vir direto dos anos 1980, mas de um lado mais sombrio e influenciado por Soft Cell e Depeche Mode. Em “Love and Anarchy”, Maya traz um Drum ‘N Bass estilizado, imprimindo uma sensação de rapidez própria da anarquia, mas com timbres mais envolventes – representante do amor. “Granite” é um momento de respiro (pero no mucho), repleto de suavidade           , mas pontuada com sintetizadores que nos cutucam no ego. O disco encerra no alto, com a distópica e quase cyberpunk “Cosmic Minivan” e sua mix feita para os clubes – uma prova de que as elaborações emocionais de Maya transcendem tempo e espaço.

O charme de s u r r e n d e r está na impossibilidade de categorizá-lo de maneira totalmente precisa e suficiente. Um termo ou gênero jamais seria capaz de transcrever e sintetizar sua experiência, pois sua inspiração primária é justamente algo igualmente impossível de se definir em uma palavra: uma vida. Não é um trabalho biográfico no sentido de esclarecer a exatidão dos fatos, mas de trazer as emoções daqueles fatos, da forma mais pura possível – e nisso, o talento de Maya é particularmente útil para concentrar os sons mais próximos daqueles sentimentos. Um disco que expõe a massa amorfa e vulnerável que são nossas emoções.

(s u r r e n d e r em uma faixa: “Cosmic Minivan – Club Mix”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.