Resenhas

Priscilla Ermel – Origens da Luz

Selo holandês reúne composições experimentais da pesquisadora musical paulistana e repertório é tão místico quanto fascinante

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Ano: 2020
Selo: Music From Memory
# Faixas: 15
Estilos: Experimental
Duração: 81'
Produção: Priscilla Ermel, John Gómez (org.)

A música brasileira tem dessas. Você pode passar 50 anos de sua vida estudando os diferentes movimentos e sonoridades, convicto de que tem um conhecimento bastante aprofundado sobre o assunto. E, de repente, surge o nome de Priscilla Ermel que joga sua convicção pela janela, ainda mais quando quem lhe apresenta o nome é um selo holandês. De qualquer forma, deixando nossos orgulhos de lado, o selo Music From Memory tem a proposta de resgatar artistas desconhecidos e relançar suas músicas, contando com uma curadoria minuciosa e verdadeiramente reveladora.

Assim, o nome de Priscilla Ermel veio à tona quando o mesmo selo compilou uma série de composições brasileiras de diferentes anos sob o nome de Outro Tempo: Electronic And Contemporary Music From Brazil 1978​-​1992, lançada em 2017. Nesta coletânea, duas músicas de Priscilla estavam presentes: “Gestos de Equilíbrio”, uma composição clássica e tocante com influências orientais e indígenas, e “Corpo Do Vento”, uma peça composta sob fortes percussões e arranjos de cordas bastante misteriosos.

A tentativa de definir a natureza das composições de Priscilla revela muito sobre sua formação. Priscilla Ermel foi criada em uma família de músicos eruditos em São Paulo e, a partir disso, sua formação musical se iniciou com estudos do violoncelo e do violão clássico. Apesar de uma criação musicalmente abastada, Priscilla trilhou um caminho acadêmico rico. Já adulta, trabalhou como pesquisadora do Instituto Béla Bartók de Musicologia da Academia Húngara de Ciências de Budapest, Laboratoire d’ Ethnomusicologie em Paris e, atualmente, coordena um projeto de pesquisa na Universidade de São Paulo, intitulado “Musicar Local, Novas Perspectivas na Etnomusicologia”. Esse pequeno currículo Lattes vem apenas para demonstrar a riqueza da pesquisa musical de Priscilla e, agora, auxiliado pelo Music From Memory, temos a oportunidade de desvendar seu trabalho por meio do lançamento Origens da Luz

A compilação reúne trabalhos e composições elaboradas de 1986 até 1992. As quinze faixas são um marco de experimentalismo denso, mas não naquele sentido de desconstruir as formas básicas de estrutura musical. Este trabalho traz vívido o sentido de experimentar diversos instrumentos, sonoridades e timbres reunidos sob uma música bastante difícil de categorizar. Os termos “Étnico” ou o genérico World Music tateiam as pontas desta complexa figura que Priscilla desenha em suas músicas.

Entretanto, pela qualidade de pesquisadora, ela não parece colocar como objetivo a definição precisa de sua obra. Temos aqui uma espécie de laboratório, no qual Priscilla testa os limites de suas fusões musicais. Mas testa com precisão e minúcia, sabendo retirar de cada elemento um pedaço de sua narrativa. Assim, nos parece muito natural ouvir uma cítara juntamente com sintetizadores elétricos. Ou, um koto (instrumento japonês) ao lado de uma percussão africana explosiva.

Não é só de diferentes instrumentos que Priscilla se vale para compor suas músicas. Há uma sobreposição de sentimentos e sensações nas diferentes composições. A forma como ela une elementos tão diversos acaba por refletir no tom emocional das peças. “Luar”, faixa de abertura, entoa melodias jobinianas, mas o excesso de reverbs coloca a obra em sentimento quase lisérgico, assim como ocorre em “Cine Mato Gráfico”. “Campo De Sonhos” traz escalas típicas da música japonesa, mas o quente violoncelo e a base do piano trazem uma sensação de filme fantástico de Akira Kurosawa. “Corpo Do Vento” é uma epopeia de 15 minutos que soa como mantra, trabalhando com ciclos de melodias e percussão que facilmente nos colocam em transe. “Americua”, por sua vez, esse mesmo transe se harmoniza a uma percussão aos moldes de Olodum. Por fim, “Mensageiro” traz cortes bruscos de humores, nos transportando do transe ao perigo em questão de segundos.

A coletânea de Priscilla Ermel evidencia uma característica fundamental da música brasileira: a capacidade de unir influências diferentes sob um mesmo escopo. Entretanto, a precisão e o acabamento único da pesquisadora ilustram a expressão dessa característica de forma intensa e raríssima. A música brasileira de Priscilla é única. O que deixa ainda mais inacreditável o fato de ter permanecido oculta para tanta gente por tanto tempo.

(Origens De Luz em uma faixa: “Cine Mato Gráfico”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.